China repensa política do filho único


China

Foto: n.i.

Consequências indesejadas fazem China repensar política do filho único

Opera Mundi – 20/03/2013 – por Fernanda Morena

Instituída em 1979, a política do filho único estabeleceu severas multas para os casais chineses que não cumprissem a lei. A legislação, que não é válida para membros de minorias étnicas ou descendentes de casais que sejam filhos únicos, abarca 63% das províncias do país e gerou consequências inesperadas e indesejadas, como o predomínio de homens adultos.

Segundo o documento do Bureau Nacional de Estatística chinês, apesar de o número de nascimentos ter crescido 0,17% em 2012, na comparação com o ano anterior e chegando a 16,35 milhões de novos chineses, a população em idade para trabalhar teve um declínio de 0,6%, o que significa 3,54 milhões de trabalhadores a menos no país. Ma Jingfang, estatístico e colaborador do Bureau, disse à mídia local que a China precisa de um novo plano “apropriado e científico para suas leis de planejamento familiar”.

O ministro responsável pela Comissão Nacional de Planejamento Familiar, Wang Xia, fez um pronunciamento em janeiro dizendo que não haverá mudanças no controle de natalidade, que, estima-se, evitou o nascimento de 400 milhões de chineses. O debate, porém, anda acirrado entre os defensores do fim da política e Pequim. “Se continuarmos assim, não teremos mais pagadores de impostos, trabalhadores ou gente para cuidar dos velhos”, reflete o demógrafo Gu Baocheng, da Universidade do Povo, de Pequim.

“Há que se considerar também a ineficiência da mão de obra no país. Se você vai a um restaurante relativamente grande, há muitas meninas cujo trabalho é apenas cumprimentar o freguês ao entrar. E muitos homens e mulheres se aposentam cerca de cinco anos antes da idade indicada nos regulamentos. Isso não é também um desperdício de mão de obra?”, questiona a socióloga Gui Xiehua, da Universidade do Povo.

Pequenos Imperadores

Há um entendimento comum de que a geração pós-1980, como é chamada na China, é responsável por uma população de crianças mimadas e egoístas, máxima que deu origem ao termo “pequenos imperadores”, como são chamados esses jovens.

Para testar a realidade do conceito, um grupo de pesquisadores australianos conduziu um estudo com 421 adultos, metade deles nascidos antes da política do filho único, e a outra metade nascida após 1979. Através de testes de personalidade, entrevistas e desafios econômicos, os resultados mostram que adultos nascidos pós-1980 são mais egoístas, menos confiáveis, possuem menor habilidade social e comunicativa e são menos dispostos a tomar iniciativas que veem como arriscadas.

“Não acho que o egoísmo dos jovens chineses seja relacionado apenas à politica do filho único. Há muita gente que tem irmãos e é egoísta. É preciso também avaliar, no caso da China, o ambiente econômico em que essas crianças nasceram”, diz Xie Guihua. A socióloga acrescenta que a característica também pode não ser definitiva, visto que o governo e a mídia chinesa mantêm um discurso mais comunitário em detrimento do individualismo. “Essas pessoas podem mudar ao crescer e se adaptar à sociedade”.

Discrepância entre gêneros

É também decorrente da política do filho único a disparidade entre homens e mulheres na China. Com um sistema social e de previdência quase inexistente, a sociedade chinesa organizou-se sob um sistema em que os filhos cuidam dos pais na velhice. Assim, cada filho tem a pressão econômica de prover para seus pais quando adultos.

No caso das mulheres, que casam e se tornam parte da família do esposo, a obrigação aumenta, visto que ela é responsável pelos seus sogros, além dos próprios pais. Esse sistema causou o aborto de milhares de bebês do sexo feminino, especialmente nas zonas rurais, e, somado à política de filho único, levou a China a ser um país velho e masculino. Em 2020, haverá na China 37 milhões de homens solteiros, sem mulheres com quem casar.

“A falta de apoio na velhice é, para mim, a pior consequência da política. Os jovens chineses acabam tendo os pais como um fardo”, avalia Xie Guihua. A pressão econômica aumenta na medida em que o mercado de trabalho está saturado e muitos jovens graduados não conseguem empregos. Há ainda o crescimento da poupança feita pela sociedade, que esfria o mercado interno. “Antes de pensarmos no fim da política, deveríamos rever nosso sistema de previdência social e saúde”, sugere a especialista. No maior asilo da capital, há uma lista de espera de 100 anos para um leito.

Opera Mundi publica com exclusividade os textos do blog “Por dentro dos Brics”, em que quatro jornalistas brasileiros trazem as novidades dos países emergentes direto de Rússia, Índia, China e África do Sul. Confira mais em http://www.osbrics.com e @osbrics no Twitter

Fonte: http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/27897/consequencias+indesejadas+fazem+china+repensar+politica+do+filho+unico.shtml

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