Os desafios para a Construção de uma Democracia Multirracial


Os desafios para a Construção de uma Democracia Multirracial: Se o passado é de sofrimento, o presente é de luta… E o futuro, esse é de mais respeito e mais oportunidade

Thales Machado, graduando em Relações Internacionais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Imagem: Pragmatismo Político.

Imagem: Pragmatismo Político.

No dia dois de maio deste ano tive impedida minha entrada em uma casa noturna de Porto Alegre por claras motivações racistas. O caso teve repercussão na mídia, o que gerou um debate sobre o fato de ainda existir racismo no Brasil. Passados estes lamentáveis acontecimentos e tendo meus “15 minutos de fama”, como muito ouvi, acredito que devo refletir sobre aquilo. Por que comigo? E por que naquele lugar?

Há poucos dias, passou quase que despercebido o 13 de maio, data da abolição da escravatura no Brasil (13/05/1888). Daquele momento em diante, os negros, até então presos à terra ou ao seu senhor, encontravam-se livres. A liberdade, contudo, é uma mentira cívica, pois 5% dos escravos não foram libertos na dita abolição. Ao contrário do que nos fizeram pensar durante muitos anos, até mesmo na escola, esse ato não tem relação com o caráter humanitário ou com o suposto bom coração da Princesa Isabel. A liberdade foi “dada” com novas correntes, que nos aprisionaram de maneira traiçoeira e cruel. Nos disseram onde deveríamos morar, nos divertir e até mesmo onde poderíamos ir. O negro escravo saiu das senzalas e foi direto pra sarjeta, para a exclusão, para o esquecimento, para a perda de coesão social; até ser marginalizado junto com a sua religião, seu ritmo musical e jogado nas favelas por todo o Brasil.

Fomos deixados à própria sorte, e ganhamos a liberdade apenas de escolher a ponte na qual morreríamos. Chamam, até hoje, negras de mulatas, por simples ignorância histórica, já que negras eram comparadas com mulas porque serviam para amamentar os filhos da sinhá. Acreditem se quiser, senhores de escravos foram indenizados pelo Estado brasileiro com o fim da escravidão e a consequente perda dos “seus” negros e negras. País esse que renegou minha cor, articulando um processo de branqueamento com o estímulo para a imigração italiana e alemã. No Rio Grande do Sul, negros foram mortos covardemente no histórico Massacre dos Porongos após terem lutado na linha de frente ao lado dos farrapos.

É por essa razão que no Brasil o racismo é estrutural. Ou seja, embora não exista um impedimento institucional, os negros não estão representados nos espaços aos quais eles tem direito. Seja na universidade, na política, na televisão, no judiciário, nas profissões melhor remuneradas. Portanto, hoje só sente as correntes quem se movimenta, porque, no lugar onde insistem em nos impingir, não sentimos as opressões e nem enxergamos as injustiças, pelo menos no sentido micro. O racismo institucional, esse no sentido macro, dificulta a inserção do negro e impossibilita enxergar o seu papel como protagonista da sociedade. O apartheid brasileiro é silencioso. Segrega ao mesmo tempo que mistura. Faz o racismo parecer inexistente ao mesmo tempo que ele é estrutural. Isso sustenta o mito da igualdade racial.

Nos últimos anos nosso país tem visto diversas mudanças no seu cenário social. O movimento negro traz uma luta com muito suor e enfrentamento. Por vezes, seu grito é diminuído por setores mais conservadores da sociedade que insistem em dizer que movimentos sociais como esse somente alimentam o ódio. Chamam de revanchismo, de coitadismo. Coitado é quem pensa desse jeito, pois não aguentaria um dia na vida real de um negro no Brasil. No país onde a polícia não te defende. No país onde tu é seguido no supermercado. No país onde o taxi não para pra ti. No país onde sempre te olham com desconfiança. No país onde tu não consegue te enxergar nos lugares onde tu sonha chegar. E que provavelmente tu não vai passar do sonho.

É esse pensamento que predomina até hoje. O pensamento de que quando o negro conquista algum novo direito, o branco é materialmente prejudicado. Vivemos numa época onde todos são macacos, mas poucos são a favor de cotas. Em que a vida é sagrada, mas a polícia terrorista é nossa melhor saída para a questão da segurança. Chamam cotas de racismo, ou até, do tão repetido racismo inverso, justificado na dita exclusão dos brancos em detrimento dos negros. Anima-me saber que 65% dos brasileiros são a favor das ações afirmativas, segundo pesquisa do Datafolha, que eu prefiro chamar de compensatórias. Visto o tamanho da cortina de fumaça de desconhecimento que cerca esse assunto, o resultado é muito significativo.

Lembro com alegria da minha infância pelos momentos de ingenuidade e alegria incomparável de uma criança que aproveitou da melhor maneira a época das maiores descobertas pessoais. Mas dela, também lembro, agora com um olhar mais crítico, de fortes marcas do racismo estrutural. Por exemplo, nos desenhos norte-americanos nos quais eu nunca me enxerguei, e por ter sido ensinado a não sentir atração por mulheres negras e a me achar feio. Minha autoestima, no que se refere à afirmação como negro, sempre foi muito baixa, e demorei muito a me aceitar. Por isso é necessário que democratizemos os meios de comunicação, com programas voltados mais para cultura nacional e com o aspecto de conscientizar, explorando o intelecto.

Não me esqueço da minha mãe dizendo: “Filho, por tu ser preto, tu tem que ser duas vezes melhor!”. Ou quando a diretora da minha antiga escola no ensino fundamental me disse depois de uma briga onde o preconceito racial foi o motivo: “Thales, quando te chamarem de macaco não da bola, eles não vão parar enquanto tu te importar. Não culpo a diretora, muito menos minha mãe. Por incrível que pareça, eu agradeço. E hoje questiono com todas as forças os dois conselhos/ensinamentos. Ser duas vezes melhor como, se nós estamos pelo menos 300 anos atrasados?

A educação de excelência na base tem papel fundamental no combate ao racismo. A lei que obriga todas as escolas a ensinar a história do continente africano é um grande avanço. Políticas de distribuição de renda no Brasil, como o Bolsa Família e o Minha Casa Minha Vida, atingem diretamente a população pobre, na sua maioria negra. No ensino superior é preciso garantir os programas de sucesso, como as cotas, o ProUni e o Fies, pois esses programas têm os negros como os principais beneficiados. Mas precisamos avançar nas políticas de permanência. Essas viabilizam formas para que o estudante popular tenha um acompanhamento especial tendo em vista a diminuição de suas dificuldades na vida acadêmica. E agora conquistamos 20% de reserva de vagas em concursos públicos federais, já que as empresas continuam tendo como critério a cor da pele.

Sou graduando cotista. Não foi a regra que me colocou na universidade, faço parte de uma vanguarda que em 14 anos foi de 2% para 10% da população negra universitária. Os números são baixíssimos, se colocássemos cursos da área da saúde seria ainda menos significativo, mas considero a estatística promissora. Desestimulante é saber que de cada três vítimas de homicídio no Brasil, duas são negras, sem nenhum indício de que negros são os principais descumpridores da lei. Há um genocídio a juventude negra de periferia. Embora a população negra carcerária é de 60%, ou seja, proporcionalmente o Brasil conta com mais negros nas presos do que livres. Haja vista que os negros significam 50,7% da população brasileira. Com base nesse dado, faz-se necessário uma profunda reforma e desmilitarização da polícia e que essa tenha um caráter civil, humanitário e social.

Logo, retomando o assunto do primeiro parágrafo, por que naquele lugar? Querem que nós aceitemos o gueto. Mas não vamos aceitar, eu não vou aceitar. Queremos a universidade, queremos bolsa de iniciação científica, queremos ser médicos, queremos ser acadêmicos, queremos a política, queremos tudo que pudermos e o que nos for de direito. Porque lugar de negro é onde ele quiser.

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