As eleições em Israel e a colisão entre Obama e Netanyahu


Willian Moraes Roberto, pesquisador do NERINT e graduando em Relações Internacionais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

Marcelo de Mello Kanter, Diretor-Geral do ISAPE, mestrando em Estudos Estratégicos Internacionais na UFRGS. Bacharel em Relações Internacionais pela UFRGS

Com a proximidade das eleições israelenses marcadas para 17 de março, o distanciamento entre os aliados tradicionais, Israel e Estados Unidos, tem se tornado mais evidente. Isso se reforça, sobretudo, após os sinais que apontam para um apoio de Obama ao bloco de oposição em Israel, o qual busca impedir a reeleição do Primeiro Ministro Netanyahu, líder do Likud. Numa eleição acirrada, esse respaldo pode ter efeito decisivo, alterando o contexto político de Israel e afetando o Oriente Médio como um todo. Este artigo busca apresentar as causas desta relação fria entre Netanyahu e Obama e o panorama da eleição israelense a fim de esclarecer as possíveis consequências dessa ligação. Argumenta-se que desde a chegada de Obama à Casa Branca, o presidente dos EUA divergiu com Israel em sua política externa para a Palestina e para o Irã, tendo de abrir mão de diversos objetivos por ele traçados em sua campanha. Desta forma, Obama demonstraria interesse que outro braço político governasse Israel na tentativa de alinhar as ambições entre os dois países aliados.

Barack Obama e Benjamin Netanyahu. Foto: AP / Pablo Martinez Monsivais.

Barack Obama e Benjamin Netanyahu. Foto: AP / Pablo Martinez Monsivais.

Benjamin Netanyahu foi Primeiro Ministro em Israel pela primeira vez em 1996, tendo sido o principal líder do Likud em oposição aos Acordos de Oslo conduzidos por Yitzhak Rabin, que ocupou o cargo até 1995, quando foi assassinado por um israelense radical. Durante os comícios que Netanyahu conduziu à época, eram comuns cartazes com gravuras de alvos sobre Rabin, o que o caracterizou como uma figura polêmica, acusada de incitar a violência contra o então premier (PEREIRA; KANTER, 2012).

Seu primeiro mandato foi marcado por uma profunda reforma econômica liberalizante e por crescente resistência à implementação dos acordos de paz, pontos que lhe renderam críticas da esquerda israelense. Netanyahu também teve sua liderança prejudicada por Ariel Sharon que, como ministro de infraestrutura, ampliava os assentamentos em territórios ocupados, tornando-se popular dentro do Likud. Criticado pela direita e pela esquerda, foi derrotado em 1999 pelo trabalhista Ehud Barak e por Ariel Sharon na disputa pela liderança do partido. Netanyahu retornou ao comando do Likud em 2005, fazendo oposição ao Kadima, fundado por Sharon. Após a Guerra de Gaza de 2009, ele conseguiu liderar seu partido para ocupar o governo novamente, sendo reeleito em 2013.

O antagonismo demonstrado pela administração Obama em relação ao atual primeiro-ministro israelense se deve aos embates ocorridos entre ambos desde a eleição do presidente estadunidense em 2009. À época, a política externa pretendida de Obama para o problema Israel-Palestina e para o Irã diferia da visão de Netanyahu. Desde então, percebeu-se que os objetivos dos dois países, históricos aliados, passariam a ser conflitantes — com Obama sendo constantemente pressionado não só por Netanyahu, mas também pelo lobby israelense nos EUA e pelos republicanos.

Durante sua campanha em 2008, Obama já dava sinais de que sua estada no poder representaria uma mudança na política externa dos EUA. Diferente de seu antecessor, que se recusava a “negociar com o mal”, ele prometeu se engajar politicamente com seus inimigos, declarando, por exemplo, ser necessário que os EUA dialogassem com os sírios e os iranianos (PARSI, 2012). Logo após ser eleito, afirmou em discurso no Cairo que nenhum tipo de governo deveria ser imposto a outra nação, sinalizando ao mundo árabe-muçulmano um recomeço nas suas relações, baseado no respeito mútuo (GERGES, 2012).

Sobre o conflito Israel-Palestina, Obama telefonou no seu primeiro dia de governo para o presidente da Autoridade Palestina (AP), Mahmoud Abbas, e prometeu ajudá-lo na busca por um Estado palestino (GERGES, 2012). Ao mesmo tempo, trabalhou para conseguir um congelamento temporário na expansão dos assentamentos israelenses na Cisjordânia. Como o Likud historicamente possui uma postura de oposição a negociações de paz com os palestinos e, ao mesmo tempo, prioriza a expansão dos assentamentos, os quais minam a possibilidade de integridade territorial de um futuro Estado palestino, a política de Obama entrou em choque com Netanyahu desde princípio. Em março de 2010, Israel acatou a medida em reçação aos assentamentos, o que levou a AP a aceitar negociações de paz indiretas, mediadas pelos EUA — ainda que Netanyahu insistisse que aspectos substantivos, como segurança e status dos territórios ocupados, não devessem ser discutidos (GERGES, 2012). Ainda em março, o vice-presidente dos EUA, Joe Biden, vai a Tel Aviv e recebe a notificação da construção de mais 1.600 casas na Cisjordânia — ação condenada por Obama, que a considera provocativa. O próprio embaixador israelense nos EUA, Michael Oren, afirmou que a relação entre os dois antigos aliados aparentava estar em seu nível mais baixo desde 1975 (BBC, 2010).

No mesmo mês, Netanyahu vai a Washington encontrar-se com Obama, que delineia uma série de pontos que deveriam ser seguidos por Israel, como o fim dos assentamentos e a diminuição dos bloqueios militares terrestres nos territórios ocupados, insistindo também para que os aspectos mais substantivos (securitários e territoriais) fossem discutidos. Netanyahu se recusa e Obama, insatisfeito com sua intransigência, retira-se da Casa Branca, deixando o primeiro-ministro israelense sozinho (BLOMFIELD, 2010). Ao retornar a Tel Aviv, Netanyahu declarou que não havia tido nenhuma alteração na postura israelense frente aos palestinos. Obama, porém, ao invés de pressionar para que Netanyahu seguisse seus pontos, abandonou a ideia devido às divergências internas, concedendo desde já uma pequena vitória a Israel.

Foto: n.i.

As negociações indiretas não renderam frutos e a construção dos assentamentos foi retomada após setembro de 2010. Ainda que a então Secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, afirmasse que a posição do país continuava a mesma, não aceitando a legitimidade da ação, Obama não tomou nenhuma iniciativa para de fato impedir sua construção. Mahmoud Abbas declarou sentir-se “traído pelos EUA” (apud GERGES, 2012, p. 123). Após diversas afirmações iniciais de que Obama mudaria o rumo do conflito Israel-Palestina, provou-se que a Casa Branca não tinha vontade política para questionar um antigo aliado, atestando sua capitulação frente às demandas israelenses e convencendo os palestinos da impossibilidade de confiar na administração Obama para garantir seu Estado. Desde já, o presidente norte-americano sabia que a pressão do governo de Netanyahu fora um dos principais percalços à sua política externa pretendida inicialmente.

Abbas, então, decidiu buscar o reconhecimento do Estado palestino através das Nações Unidas (ONU), em uma declaração de independência à diplomacia estadunidense devido à falha desta nas negociações (GERGES, 2012). Em setembro de 2010, Obama discursou na Assembleia Geral da ONU clamando para que, no próximo ano, a Palestina já estivesse dentro da organização. Entretanto, em setembro de 2011, ele não só condenou a ação palestina como disse que estes deveriam selar a paz com Israel antes de receberem soberania plena. Frente à AIPAC, principal componente do lobby pró-Israel nos EUA, Obama apoiou a demanda israelense de que o futuro Estado palestino deveria ser desmilitarizado e afirmou que Washington não possuía preferências em um acordo de paz de quais seriam as fronteiras entre os países — deixando de lado a postura de pregar por uma volta às fronteiras pré-1967 (GERGES, 2012).

A postura de capitulação frente a Israel após um embate de interesses ocorreu também em relação ao Irã. Obama assumiu a Casa Branca após um período de ascensão de poder iraniano no Oriente Médio, dados os fracassos estadunidenses no Iraque, os problemas no Afeganistão e a guerra de Israel contra o Hezbollah em 2006, quando este declarou-se vitorioso. Colocando em seu discurso como prioridade o programa nuclear iraniano a fim de evitar a aquisição de armas nucleares por parte de Teerã, Obama trouxe a ideia de engajar-se com o Irã sem pré-condições, diferindo da postura de Bush, que só aceitaria discussões após o fim do programa nuclear. Ao mesmo tempo, diferenciou-se de seu antecessor ao acreditar ser impossível demandar do Irã o fim do programa de enriquecimento, buscando, ao invés disso, limites e inspeções a ele (PARSI, 2012). Em mais uma área, Obama contrapôs-se à política adotada de Netanyahu, contrária ao que fora pregado pelo novo presidente estadunidense.

A fim de adotar uma nova postura com relação ao Irã, mas ainda assim mantendo a possibilidade de coerção para satisfazer a demanda de setores mais linha-dura dos EUA e de Israel, Obama optou por uma estratégia de “duas vias” (dual track): buscar negociações sem pré-condições, preparando ao mesmo tempo sanções para caso a diplomacia falhasse. Israel questionou a tática desde o começo, clamando pela permanência do objetivo de “zero enriquecimento”, como buscado por Bush anteriormente.

Em março de 2009, antes de qualquer negociação, Obama sinalizou ao Irã uma nova postura. Através de uma mensagem no novo ano persa, afirmou que os EUA procuravam um engajamento que fosse honesto e baseado em respeito mútuo. Na ocasião, declarou querer “que a República Islâmica do Irã ocupe seu lugar de direito na comunidade das nações. Vocês têm esse direito – que vem com responsabilidades” (EUA, 2009). Imediatamente, houve a condenação por parte de Israel.

A janela de oportunidade para um acordo surgiu em junho de 2009, quando o Irã solicitou a compra de pastilhas de combustível para o Reator de Pesquisa de Teerã. Obama viu a possibilidade de criar uma medida de construção de confiança para que negociações mais amplas fossem abertas: Washington propunha que o Irã enviasse seu urânio enriquecido para fora do país, em direção a outro Estado que então usaria esse material para produzir as pastilhas. Com isso, Obama esperava garantir que o urânio enriquecido do Irã não seria usado para produção de armas nucleares. Caso aceito, o pacto simbolizaria boa-fé por parte de Teerã. Após negociações, a Rússia, sob a administração de Medvedev, aceitou receber o material nuclear e produzir as pastilhas.

Em outubro, o Irã e o P5+1 (grupo dos países com assento permanente no Conselho de Segurança da ONU e Alemanha) se reuniram pela primeira vez em Genebra desde que Obama assumira a Casa Branca. Entretanto, após meses de negociação, diversos problemas atrapalhavam a conclusão da proposta: o Irã desconfiava de que seu urânio não seria devolvido e exigia o recebimento das pastilhas logo após o envio do material, enquanto os EUA pressionavam por um tempo de espera maior. Paralelamente, Teerã passava por uma crise interna decorrente das eleições presidenciais de 2009: a reeleição de Ahmadinejad fora acusada de fraude e milhares de protestantes foram às ruas, o que foi seguido por forte repressão por parte do regime. Isso congelou o já difuso e complexo processo decisório do país, impossibilitando grandes concessões. Obama, por sua vez, precisava de algo para demonstrar a um congresso que cobrava resultados, cada vez mais pressionado pelas declarações israelenses e dos republicanos de que negociar era sinônimo de fraqueza (PARSI, 2012).

Após três encontros sem fechar nenhum acordo, o presidente norte-americano resolveu adotar o caminho da coerção, de onde não voltaria mais. Parsi (2012) afirma que assim que cedeu à pressão linha-dura dos republicanos e de Israel, a Casa Branca não conseguiu impor sua vontade de novamente negociar com o Irã. A falha de construir uma medida de confiança foi tomada como a impossibilidade da diplomacia funcionar pelo menos até 2013/2014, com a eleição de Rouhani e da ascensão do Estado Islâmico. Por no mínimo mais quatro anos, Obama passou a ecoar e apoiar as denúncias israelenses referentes ao Irã, ainda que inicialmente tenha delineado um rumo oposto. Washington evitou negociações diretas e engajamento, inclusive rejeitando o acordo da Declaração de Teerã entre o Irã, Brasil e Turquia, em 2010, cujo resultado era muito semelhante ao que os EUA vinham propondo desde o início em 2009 (PARSI, 2012).

Com isso, em 2010, Obama já havia voltado atrás em suas propostas de uma nova abordagem para os principais conflitos do Oriente Médio — Irã e Israel-Palestina. O presidente dos EUA demonstrou uma rápida incapacidade de enfrentar a ferrenha oposição do Partido Republicano e de Israel, encabeçada por Netanyahu. Pareceu não estar disposto a gastar seu capital político com tais conflitos na região, principalmente porque pregava que sua prioridade seria um “pivô para a Ásia” e por estar perto das eleições legislativas de 2010 no congresso. A esperança de uma nova abordagem que trouxesse mudanças de fato gradualmente desmontou-se, com a impressão de que Obama havia se rendido e adotado uma agenda mais linha-dura (ALI, 2010).

Recentemente, a conjuntura regional do Oriente Médio mostrou-se novamente favorável para uma reaproximação entre EUA e Irã. Tanto Washington quanto Teerã têm consciência de seus interesses em comum na estabilização do Iraque e do Afeganistão. Assim, a emergência do “Estado Islâmico” (EI) criou um novo inimigo em comum em solo iraquiano, que se espalhou para o território sírio. Ainda que inicialmente Irã e EUA se confrontassem indiretamente na Síria em relação ao destino do regime de Assad, o fundamentalismo do EI criou um problema mais urgente. Com os EUA não querendo envolver-se com tropas terrestres em mais uma provável longa guerra na região, avançaram-se os esforços iranianos de ajudar o Iraque no combate ao EI. Aproveitando-se da eleição de Rouhani em 2013, de um clérigo que prometeu moderação à política externa do Irã e uma vontade de normalizar-se no sistema internacional, Obama reabriu discussões relacionadas ao programa nuclear do Irã e que podem servir de abertura para assuntos estratégicos que envolvam toda a região, do Líbano ao Afeganistão. Israel novamente vem atacando as tentativas de acordo, alegando que o Irã quer apenas comprar tempo para produzir uma bomba nuclear. O conflito entre os dois aliados envolvendo o Irã claramente se reascendeu, levando Washington a balancear entre o que são seus próprios interesses nacionais e os de Israel.

É dentro desse contexto que se inserem as eleições em Israel. O recente mandato de Netanyahu, iniciado em 2009, foi marcado por profunda insatisfação com o desempenho econômico do país, principalmente devido à alta do custo de vida, e por um debate acerca dos subsídios governamentais à ortodoxia judaica. Nas eleições de 2013, Netanyahu acabou por formar uma coalizão com dois partidos mais à direita — Israel Beitenu, de perfil nacionalista secular, liderado por Avigdor Lieberman, e com eleitorado da diáspora russa; e Lar Judaico, nacionalista, ligado a religiosos e a comunidades dos assentamentos, e liderado por Naftali Bennett — e com dois partidos de centro — Hatnuah, centrado em Tzipi Livni, que saíra do Likud com Sharon para formar o Kadima, e abandonou este para fundar seu próprio partido; e o Yesh Atid, centrado em Yair Lapid, ex-âncora de TV que defendia reformas políticas e econômicas.

Após a guerra de Gaza de 2014, Netanyahu viu-se acuado pelos partidos de direita de sua coalizão, que defendiam uma posição mais dura frente aos palestinos sem se deixar afetar pela pressão internacional, enquanto os partidos centristas ameaçavam abandonar a coalizão se houvesse a anexação de mais territórios da Cisjordânia. Sob pressão, Netanyahu demitiu Lapid e Livni (Ministros de Finanças e Justiça, respectivamente) e o Parlamento votou pela realização de novas eleições em 17 de março de 2015.

Desde então, ocorreram alguns eventos de maior impacto na movimentação política eleitoral. O mais importante é a formação de uma lista única entre o partido Trabalhista e o Hatnuah de Livni em uma aliança denominada União Sionista (US). A US e o Likud têm consistentemente recebido uma intenção de voto que lhes conferiria acima de vinte assentos no Parlamento. Os dois são os únicos grupos a alcançar tal limiar e, portanto, os que disputam mais seriamente a possibilidade de conquista do poder. No caso de um governo encabeçado pela US, Livni e o líder dos trabalhistas, Isaac Herzog, chegaram a um acordo dentro do qual cada um dos dois seria Primeiro Ministro por dois anos, começando por Herzog (KERSHNER, 2014).

Outro evento significativo foi a formação de blocos e partidos que afetam a eleição. Entre os mais importantes está a aliança entre a maior parte dos partidos árabes e do partido comunista israelense, o Hadash, em uma lista única. Tal fato tem o potencial de mobilizar a comunidade árabe de Israel, que tradicionalmente tem uma baixa participação nas eleições, desmotivada pela divisão entre os partidos que lhe representam (KHOURY, 2015). De fato, a lista unida árabe tem consistentemente demonstrado uma intenção de voto que lhe coloca entre as maiores bancadas do futuro parlamento. Outra força importante é o ex-ministro de Comunicações de Netanyahu, Moshe Kahlon, que fundou o Kulanu, de viés centrista, criticando a aliança do Likud com a extrema direita e a ruptura do partido com suas propostas sociais (MENDEL, 2015).

A campanha de Netanyahu vem apresentando como seus pilares principais a experiência do candidato e suas credenciais para garantir a segurança nacional, além de buscar enfrentar a crítica de ter conduzido Israel ao isolamento internacional, participando de uma marcha de chefes de governo em Paris e discursando no Congresso norte-americano (SCHECHTER, 2015; EDITORIAL, 2015). Ao mesmo tempo, aposta na inconstância da trajetória política de Livni e na excessiva sensibilidade de Herzog à pressão internacional.

A campanha da US, por outro lado, buscou atrair a insatisfação com a economia israelense que resultou em protestos em 2011, além de criticar o isolamento internacional de Israel causado pelo Likud e a influência da extrema direita no governo. Contudo, o partido Trabalhista se tornou mais à esquerda do que muitos eleitores em Israel nos últimos anos, conforme indicado pelo seu desempenho eleitoral. Em resposta a isso, a plataforma eleitoral de Herzog consiste em propostas moderadas para o panorama político local — como, por exemplo, ao invés de banir a expansão de assentamentos, permitir apenas a expansão de alguns blocos contíguos ao território de Israel (I24, 2015). Além disso, Herzog se distanciou da lista árabe unida, percebida como radical pela maioria do eleitorado israelense, a fim de viabilizar a aproximação com os vários pequenos partidos de centro que serão necessários para a constituição de um governo (SOLOMON, 2015). De fato, apesar de alguns destes grupos — Israel Beitenu, Kulanu e Yesh Atid — terem uma plataforma próxima com a do Likud, os líderes desses partidos personalistas têm desavenças com Netanyahu, constituindo uma chance única para o partido Trabalhista ocupar o governo pela primeira vez desde 2001.

Apesar dos diversos temas que pautam as eleições em Israel, o apoio internacional ao país constitui um tópico importante, de modo que, em eleições acirradas como as próximas aparentam ser, o discreto apoio de Obama a Herzog tem o potencial de ser decisivo (MILLER, 2015). A postura crítica da Casa Branca quanto à ida de Netanyahu ao congresso estadunidense no início de março, onde o Primeiro Ministro criticou as negociações entre EUA e Irã e clamou por novas sanções contra Teerã, reforça esta posição de Obama de contrariedade ao Likud.

Conforme apresentado anteriormente, é notório que uma nova colisão de interesses entre Washington e Tel Aviv vem ocorrendo, principalmente no que se refere às negociações entre EUA e Irã. Agora no fim do segundo mandato, parece que Obama busca deixar como legado de sua política externa uma negociação bem sucedida com Teerã, diferentemente da falha inicial em 2009/2010. Caso isso seja alcançado, não só o programa nuclear iraniano seria de alguma forma constrangido, como abriria se a oportunidade para uma cooperação estratégica que envolvesse pontos de interesse em comum aos dois. Exemplos seriam a estabilização da Síria e do Iraque contra o EI, como também a situação no Afeganistão e até a postura do Hezbollah no Líbano. Netanyahu mostra-se convicto em sua oposição à tal aproximação, temendo que o Irã ganhe importância estratégica na região às custas de Israel, ou que a resolução desses problemas recoloque o foco na questão palestina. De qualquer forma, Obama novamente está com interesses que apresentam-se em clara oposição aos de Netanyahu, e parece estar disposto a conseguir uma vitória diplomática, diferentemente do primeiro mandato. Para tanto, um aliado cujo governo tem visões mais alinhadas aos objetivos de Washington seria benéfico à atual administração da Casa Branca – e parece que o bloco de Herzog desponta como esta possibilidade. Está para se decidir mais uma das peças do jogo que podem alterar a dinâmica do Oriente Médio no tempo que está por vir.

Foto: n.i.

Referências:

ALI, Tariq. The Obama Syndrome: Surrender at Home, War Abroad. Londres: Verso, 2010.

BBC. Ties between Israel and US ‘worst in 35 years’. BBC: 15 de março de 2010. Disponível em: <http://news.bbc.co.uk/2/hi/middle_east/8567706.stm>. Último acesso em: 9 de março de 2015.

BLOMFIELD, Adrian. Obama snubbed Netanyahu for dinner with Michelle and the girls, Israelis claim. The Telegraph: 25 de março de 2010. Disponível em: <http://news.bbc.co.uk/2/hi/middle_east/8567706.stm>. Último acesso em: 9 de março de 2015.

EDITORIAL Board, The. Mr. Netanyahu’s unconvincing speech to congress. The New York Times: 3 de março de 2015. Disponível em: <http://www.nytimes.com/2015/03/04/opinion/netanyahu-israel-unconvincing-iran-speech-to-congress.html>. Último acesso em: 9 de março de 2015.

EUA (Estados Unidos da América). Videotaped remarks by the president in celebration of Nowruz. The White House: 20 de março de 2009. Disponível em: <http://www.whitehouse.gov/the_press_office/VIDEOTAPED-REMARKS-BY-THE-PRESIDENT-IN-CELEBRATION-OF-NOWRUZ/>. Último acesso em: 9 de março de 2015.

GERGES, Fawaz A. Obama and the Middle East: the end of America’s moment?. Londres: Palgrave Macmillan, 2012.

I24 News. Zionist Union leader Herzog: I won’t build outside major settlement blocs. I24 News: 21 de fevereiro de 2015. Disponível em: <http://www.i24news.tv/en/news/israel/politics/61835-150221-zionist-union-leader-herzog-won-t-build-outside-major-settlement-blocs>. Último acesso em: 9 de março de 2015.

KERSHNER, Isabel. Alliance adds twist to Israeli Elections. The New York Times: 10 de dezembro de 2015. Disponível em: <http://www.nytimes.com/2014/12/11/world/middleeast/alliance-adds-twist-to-israeli-elections.html?_r=2>. Último acesso em: 9 de março de 2015.

KHOURY, Jack. Arab parties agree to run on joint Knesset slate for first time in Israeli history. Haaretz: 23 de janeiro de 2015. Disponível em: <http://www.haaretz.com/news/israel-election-2015/.premium-1.638600>. Último acesso em: 9 de março de 2015.

MENDEL, Roee. Kahlon: Netanyahu, Lapid, and Bennett to blame for high living costs. YNet News: 14 de janeiro de 2015. Disponível em: <http://www.ynetnews.com/articles/0,7340,L-4615204,00.html>. Último acesso em: 9 de março de 2015.

MILLER, Aaron David. Obama is pursuing regime change in Israel. Foreign Policy: 12 de fevereiro de 2015. Disponível em: <http://foreignpolicy.com/2015/02/12/obama-is-pursuing-regime-change-in-israel-bibi-netanyahu-elections/>. Último acesso em: 9 de março de 2015.

MOUSAVIAN, Seyed Hossein. Iran and the United States: an insider’s view on the failed past and the road to peace. Nova York: Bloomsbury, 2014.

PARSI, Trita. A Single Roll of the Dice: Obama’s Diplomacy with Iran. Londres: Yale University Press, 2012.

PEREIRA, A. D.; KANTER, M. M.. As quatro estações do conflito Israel-Palestina. Ciências & Letras (FAPA. Impresso), v. 51, p. 81-100, 2012.

SCHECHTER, Asher. Netanyahu’s Paris appearance was a PR disaster. Haaretz: 12 de janeiro de 2015. Disponível em: <http://www.haaretz.com/news/diplomacy-defense/.premium-1.636737>. Último acesso em: 9 de março de 2015.

SOLOMON, Ariel Ben. Arab Joint List rejects idea of joining Herzog-led government. The Jerusalem Post: 3 de março de 2015. Disponível em: <http://www.jpost.com/Israel-Elections/Arab-Joint-List-rejects-idea-of-joining-Herzog-led-government-392787>. Último acesso em: 9 de março de 2015.

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