América do Sul, China e os novos meios da integração (inter-)regional


Confira aqui o artigo escrito pelo pesquisador do ISAPE, Bruno Gomes Guimarães, e Diogo Ives, mestrando em ciência política na UFRGS, a respeito dos investimentos chineses em infraestrutura na América do Sul e os desafios para a integração regional do continente e do mesmo com a China.

Foto: Divulgação / Planalto.

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América do Sul, China e os novos meios da integração (inter-)regional

Mundorama – 08/09/2015 – por Bruno Gomes Guimarães e Diogo Ives

A viagem do primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, a Brasil, Peru, Colômbia e Chile, em maio de 2015, buscou dar andamento ao plano de cooperação entre a China e a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), lançado em janeiro de 2015. O plano tem como maiores metas criar um comércio bilateral de US$ 500 bilhões e uma remessa de investimentos diretos chineses à região de US$ 250 bilhões até 2025 (BRASIL, 2015).

Os dois objetivos estão interligados, na medida em que a China aposta que o comércio crescerá se fizer investimentos na infraestrutura dos países latino-americanos. Trata-se de uma estratégia que também vem sendo aplicada nos últimos anos para aumentar suas relações econômicas com os países da Europa, da Ásia e da África. Ferrovias, rodovias, portos e aeroportos são construídos ou reformados para que Pequim possa comprar matérias-primas e vender manufaturas mais facilmente ao redor do mundo.

Investimentos prometidos por Li Keqiang em sua viagem à América do Sul foram orientados em grande parte por essa estratégia. O projeto de destaque é uma ferrovia de US$ 10 bilhões entre Brasil e Peru que ligará portos no Atlântico e no Pacífico. O empreendimento possibilitará que a soja do Centro-Oeste brasileiro e os minérios da Serra do Carajás e do Quadrilátero Ferrífero sejam exportados de modo mais barato através do Peru, deixando de sair por portos no Pará e no Maranhão para depois passar pelo Canal do Panamá (MORAES, 2015).

Na Colômbia, as promessas chinesas são modernizar o porto de Buenaventura, segundo mais importante do país e localizado no Pacífico, assim como construir uma rodovia de cerca de 600 km que ligará o centro do território à fronteira com a Venezuela. A estrada atravessará a região de Orinoquía — rica em agropecuária, petróleo e minérios — e costeará o rio Meta, que, por sua vez, passará por estudos para se tornar navegável até desaguar no rio venezuelano Orinoco, ligado ao Atlântico. Os dois países também estudarão a formulação de um tratado de livre comércio.

Os anúncios somam-se a uma longa lista de projetos em logística sul-americana que foram propostos pela China nos últimos anos. Exemplos incluem a construção de um porto no Suriname, que também ganhará uma ferrovia e uma rodovia ligando Paramaribo a Manaus para exportar minerais brasileiros; a expansão do porto venezuelano de Palúa, no delta no rio Orinoco, importante para os investimentos agora anunciados na Colômbia; o desenvolvimento do porto chileno de Desierto para escoar a produção de ferro das minas do Atacama; investimentos em quatro dos cinco maiores portos do México; e a expansão do porto argentino de San Antonio Oeste para exportar alimentos cultivados em terras administradas por chineses (ABDENUR, 2013).

Já no caso do Chile, o foco da visita de Li Keqiang foi a assinatura de acordos financeiros, igualmente importantes na estratégia da China de atrelar o comércio latino-americano à sua economia. Foram anunciadas a criação da primeira câmara de compensação cambial da região e a realização de swaps cambiais no valor de 22 bilhões de yuans (US$ 3,5 bilhões) (CHINA…, 2015). As duas ações têm o efeito de diminuir o uso do dólar nas trocas bilaterais, restringindo a influência dos Estados Unidos sobre a sua dinâmica. Os governos também prometeram ampliar a abrangência do tratado de livre comércio assinado em 2005.

Nem todas as propostas da China saem do papel, mas a estratégia idêntica por trás delas permite ver a natureza das suas intenções na aproximação com a América Latina. Seus investimentos são orientados essencialmente no sentido de escoar a produção de commodities para as costas oceânicas, ligando portos a minas e fazendas do interior, à semelhança do que historicamente sempre foi feito na região. Cabe aos países latino-americanos saber aproveitar a renda das exportações e os investimentos chineses para criar um caminho alternativo ao que já se viu no passado.

Uma mudança sensível na dinâmica regional já é previsível. Há uma vontade clara da China em orientar o escoamento da produção latino-americana para o Pacífico, o que beneficiará economicamente os Estados localizados nessa costa da região. Li Keqiang visitou precisamente três países que têm essa localização e que se encontram articulados na Aliança do Pacífico, bloco que busca facilitar o comércio e fluxos financeiros externos, facilitando a inserção chinesa. Para os países voltados para o Mar do Caribe e o Atlântico, a estratégia de Pequim é criar ligações transoceânicas para se chegar ao Pacífico, como a ferrovia Brasil–Peru e o Canal da Nicarágua, este último idealizado para evitar constrangimentos no trânsito marítimo através do Panamá, tradicional aliado dos Estados Unidos.

Esse cenário sugere um desafio especialmente importante para o Brasil, tanto para pensar a integração regional sul-americana, como para lidar com a sua dinâmica econômica interna, já que cidades importantes estão articuladas em torno do comércio com o Atlântico. É necessário elaborar um projeto nacional e regional que atenue os efeitos negativos dos investimentos chineses — ou de qualquer outro país —, uma vez que  “[…] a promoção de infraestrutura voltada para o desenvolvimento econômico e comercial não garante que ela seja útil aos objetivos geopolíticos e estratégicos de um Estado ou região, na medida que pode estar condicionada a interesses privados ou externos” (JAEGER, 2014, p. 87).

Certamente haverá impactos sociais, ambientais e desindustrializantes, porém o Brasil e demais países da região precisam criar estratégias e estabelecer regras para o melhor uso dos recursos provenientes de Pequim na defesa de seus interesses. Os investimentos em infraestrutura por si só não modernizarão as economias locais nem garantirão a integração regional, mas podem ajudar bastante desde que haja articulações voltadas para o longo prazo e barganhas sejam feitas. Com efeito, a CEPAL (2015) afirma que o comércio intrarregional e a formação de cadeias regionais de valor podem ser estimulados com o suprimento de lacunas logísticas regionais por parte da China. Resta então aos Estados sul-americanos saber usar essas inversões chinesas para se desenvolverem e aprofundarem a integração regional.

Referências:

ABDENUR, Adriana. China in Latin America: investments in port infrastructure. 2013. Disponível em: <http://bricspolicycenter.org/homolog/arquivos/WPchla.pdf>. Acesso: 2 jul. 2015.

BRASIL. Ministério das Relações Exteriores. Documentos aprovados na I Reunião dos Ministros das Relações Exteriores do Foro CELAC-China — Pequim, 8 e 9 de janeiro de 2015. Nota N. 8. 12 de jan. de 2015. Disponível em: <http://bit.ly/1JRt2tD&gt>. Acesso: 3 set. 2015.

CEPAL. América Latina y El Caribe y China: hacia uma nueva era de cooperación económica. LC/L.4010. Santiago: ONU, 2015.

CHINA, Chile ink multi-billion-USD currency swap deal. China Daily, 26 maio 2015. Disponível em: <http://www.chinadaily.com.cn/world/2015livistsa/2015-05/26/content_20816109.htm&gt>. Acesso: 3 set. 2015.

JAEGER, Bruna Coelho. Integração infraestrutural sul-americana: impactos sobre a estratégia e a geopolítica regional. Porto Alegre: UFRGS, 2014. Disponível em: <http://hdl.handle.net/10183/116365&gt>. Acesso: 3 set. 2015.

MORAES, Roberto. Memorando de entendimento Brasil-China assinado para ferrovia não prevê estudo até Porto do Açu. 22 de maio de 2015. Disponível em: < http://www.robertomoraes.com.br/2015/05/memorando-de-entendimento-brasil-china.html&gt>. Acesso: 3 set. 2015.

Texto original disponível em: http://mundorama.net/2015/09/08/america-do-sul-china-e-os-novos-meios-da-integracao-inter-regional-por-bruno-gomes-guimaraes-e-diogo-ives/

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