Do terrorismo à revisão constitucional: as oscilações de foco da mídia francesa após os ataques em Paris


por Camila Moreira Cesar, Diretora de Comunicação do ISAPE e doutoranda em Ciências da Informação e da Comunicação na Université Sorbonne Nouvelle Paris III

Imagem: RFI / Marco Martins.

O mundo inteiro se comoveu com a tragédia que abalou a capital francesa na última sexta-feira, 13 de novembro de 2015. Alguns minutos após o ataque, pessoas inundaram as redes sociais digitais em diversas línguas para expressar seus sentimentos de indignação, tristeza e luto pelos ataques que fizeram tantas vítimas em locais, a princípio, aleatórios. Logo após a difusão das primeiras informações sobre o ocorrido, a mídia francesa realiza uma cobertura ostensiva que permite acompanhar em tempo real o desenrolar dos acontecimentos nos locais afetados. A valorização dos barulhos de tiros e bombas ritma as imagens de terror, veiculadas infinitamente, assim como os depoimentos dos sortudos que conseguiram escapar do massacre dentro da sala de shows Bataclan. Além de visitar os locais que foram alvos dos ataques no mesmo dia em que ocorreram, François Hollande, normalmente recatado, faz três pronunciamentos em menos de duas horas no sábado pela manhã, reforçando sua responsabilidade para com a nação francesa, mas sem muita clareza sobre as medidas que serão tomadas. Apostando em uma imagem de “veterano” do jogo político, Nicolas Sarkozy também se pronuncia em rede nacional, reforçando sua solidariedade às vítimas e suas famílias, bem como seu compromisso com a República francesa. Foi essa atmosfera de dor e de incompreensão face à atrocidade terrorista que marcou os primeiros momentos do cenário de crise que se instaura no país.

Em hipótese alguma a morte de civis é algo justificável. Mas, a partir de agora, a França não pode negar que os ataques ao jornal satírico Charlie Hebdo em janeiro e os acontecimentos da última sexta-feira não sejam consequência da política de guerra francesa adotada nos últimos anos, realidade que a mídia do país começa a discutir de maneira pontual e esclarecedora. Ainda que a onda de migrações dos últimos tempos tenha alimentado o medo de boa parte dos franceses em relação ao crescimento do terrorismo em território nacional — discurso amplamente sustentado pela extrema direita —, os resultados das investigações e a constatação de que os ataques teriam sido articulados por jovens cidadãos franceses e belgas começam a reorientar a compreensão do conflito. Mas, se de um lado essas primeiras pistas sobre o perfil dos responsáveis dos ataques podem relativizar a legitimidade do discurso de raiva contra a onda de migração na Europa que serve de base para a extrema direita, de outro ela aumenta a desconfiança geral em relação ao atual governo, colocando agora em xeque a eficácia dos serviços de inteligência e de segurança franceses.

O quadro é complexo para a gestão de François Hollande, que deve tomar as medidas necessárias para resguardar a segurança dos franceses ao mesmo tempo em que deve gerir a onda de críticas quanto à vulnerabilidade de seu governo e das estratégias adotadas a nível nacional e internacional face ao novo contexto geopolítico. O anúncio da ofensiva militar francesa contra o “Estado Islâmico” ainda no fim de semana, assim como a manifestação do desejo de criar uma coalização internacional única com Estados Unidos e Rússia para endurecer a famosa “guerra ao terror” divide a opinião pública francesa, apreensiva quanto às consequências que a represália possa ter em um futuro próximo no país, até então considerado um mediador e não um ator central no conflito. Mas é a declaração do “estado de emergência” — medida prevista em lei e que pode durar até 12 dias — desde sexta-feira e a possibilidade de revisão da Constituição de 1958 anunciada pelo presidente francês em frente ao Congresso na segunda-feira (16/11) que tem começado a fazer o buzz na mídia francesa.

Em congresso realizado em Versalhes na segunda, dia 16/11, presidente reiterou gravidade dos ataques, considerados “ato de guerra” contra a França. (Foto: M. Euler / SIPA).

Sob a justificativa de “permitir aos poderes públicos agir conformemente ao Estado de direito contra o terrorismo de guerra” e buscando adaptar os textos ao atual contexto enfrentado pela França, Hollande pretende revisar os artigos 16 e 36, que preveem poderes excepcionais ao presidente face a uma ameaça grave e imediata e o aumento de poder às autoridades militares em contexto de grave crise, respectivamente. O tom conservador das proposições tem levado a imprensa francesa a discutir a real necessidade de reformular a Constituição, uma vez que tais mudanças interferem também na liberdade de imprensa, que ficaria submissa ao controle estatal, a exemplo do que fez o general Charles de Gaulle em 1961, quando da tentativa de um golpe de estado da Argélia francesa.

Ainda que a ameaça terrorista em território francês continue sendo o centro da atenção pública francesa, o destaque à postura mais ofensiva adotada por Hollande, especialmente após a manifestação de alteração constitucional começa a se inserir na agenda midiática como um fantasma do controle estatal centralizado. A estratégia de adotar uma imagem de chefe de Estado forte para reforçar seu compromisso com a questão securitária pode surtir efeito inverso ao esbarrar nos limites tão tênues entre a proteção do cidadão e a restrição de sua liberdade, preocupação que começa a se tornar central nas análises e comentários na imprensa francesa, ela mesma receosa de sofrer o ônus do endurecimento do Executivo francês.

Publicado originalmente no Observatório da Comunicação Pública.

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