Para Samuel Pinheiro Guimarães, governo interino de Temer não deve interferir na participação do Brasil no Mercosul e nos BRICS


Confira aqui a entrevista da pesquisadora do ISAPE, jornalista e doutoranda em Informação e Comunicação Sorbonne Nouvelle-UFRGS, Camila Moreira Cesar, com o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, o qual é atualmente professor do Instituto Rio Branco (IBR/MRE), ex-secretário-geral de Relações Exteriores do Itamaraty, ex-ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos do governo brasileiro e ex-Alto-Representante-Geral do Mercosul. De passagem por Paris, Pinheiro Guimarães ministrou no dia 11 de maio de 2016 o seminário “O Brasil no cenário internacional atual”, no Grupo de Reflexão sobre o Brasil Contemporâneo, após o qual foi concedida esta entrevista sobre as perspectivas em torno dos novos agenciamentos no plano politico, econômico e internacional com a posse do governo interino de Michel Temer (PMDB) a partir desta quinta-feira (12/05).

Samuel Pinheiro Guimarães. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil / Arquivo.

Camila Moreira Cesar: Diante do atual cenário politico na América Latina, mas falando mais especificamente sobre a América do Sul, e levando em consideração as transições de poder no Paraguai, na Argentina e, agora, no Brasil, como ficam as perspectivas em relação à integração da região? O senhor acha que o que foi feito ao longo dos anos 2000 construiu uma base solida capaz de evitar um retrocesso nesse sentido no caso de uma troca de governo?

Samuel Pinheiro Guimarães: Naturalmente, em um processo de integração como o Mercosul, o que é nitidamente importante é o nível de atividade econômica dos países. Se os países estão em um nível de atividade econômica baixa, em uma situação de recessão, diminui o comércio, o turismo, enfim, diminuem os investimentos.  Então, depende muito não de uma entidade superior, que esteja acima, porque o Mercosul são antes de tudo os países, mas sobretudo das politicas que serão adotadas nesses países. Se as politicas adotadas no Brasil e na Argentina forem politicas favoráveis ao crescimento, ao emprego, então vamos ter uma expansão do Mercosul como conjunto. Ainda que hoje com a Venezuela seja um pouco diferente,  é preciso lembrar sempre que o Brasil e a Argentina eram responsáveis por 95% da economia do Mercosul. Ou seja, o que ocorre no Uruguai e no Paraguai tem uma importância econômica menor, pois são países muito menores e com um PIB muito menor. Eu tenho a impressão de que os interesses que foram criados antes já são tão significativos que dificilmente poderá haver uma mudança radical. O próprio presidente argentino Maurício Macri, que no inicio de sua gestão deu declarações sobre o Mercosul, já recuou. Ele sabe que não convém à Argentina, ele sabe que, atualmente, o mercado brasileiro de automóveis é extremamente importante para o pais. Então, certas medidas, como acordos de livre comércio, por exemplo, podem prejudicar muito a economia argentina. Então, eu acho que vai depender muito das medidas que o governo Macri tomar e que o atual futuro governo brasileiro venha a tomar. Por outro lado, o Mercosul já avançou tanto no comércio, nos investimentos entre os países, que eu acho muito difícil retroceder. Não há como dizer “acabou o Mercosul”, “cada um faz os acordos que quiser”, como o senador José Serra às vezes diz, porque ele talvez não conheça os detalhes da situação. Se ele conhecesse, veria que não é bem assim.

CMC: Como temos acompanhado ao longo dos meses, as propostas do governo interino Michel Temer se articulam em torno de uma agenda neoliberal, onde a resolução dos problemas da economia remediariam na sequência a crise politica. Há essa expectativa para a abertura ao capital estrangeiro, que atrairia investidores e, assim, o pais voltaria a se desenvolver. Como o senhor avalia essas propostas ? Quais as consequências dessa visão da área econômica em termos políticos?

SPG: Eu acho que ele está um pouco equivocado. O capital estrangeiro já está presente na maior parte dos setores no Brasil. Não há uma restrição maior em nenhum setor. Nem na educação, nem na saúde, inclusive. Empresas estrangeiras compram hospitais brasileiros, compram empresas de saúde. Eu não entendo o que ele quer fazer com a abertura ao capital estrangeiro. Talvez ele queira privatizar as estatais, por exemplo. Privatizar a Petrobras, talvez os bancos brasileiros… Mas eu acredito que ele não terá muito apoio da população para isso.

CMC: Ainda ligada a esta questão, o senhor acha que esses novos arranjos na economia podem afetar a participação do Brasil nos BRICS? Como ficaria a participação brasileira em entidades como o Novo Banco de Desenvolvimento e o Arranjo Contingente de Reservas?

SPG: Essa é uma questão muito importante, mas eu também acho que não haverá mudanças nesse sentido. O Brasil já é membro do banco, já subscreveu, tem interesses em obter recursos do banco maiores do que aquilo que ele subscreveu, necessita desses recursos. Então, não tem nenhuma razão para sair porque não seria lógico. O banco não tem nenhuma influência sobre as políticas e as ideias. O Brasil apresenta projetos e, eventualmente, são aprovados, como aqueles nas área de meio ambiente e de energias renováveis, cujo valor foi em torno de 600 milhões de dólares, creio. Por isso, acho que não vai haver uma mudança em relação aos BRICS. As pessoas que não trabalham nessa área tem uma visão muito influenciada pela imprensa. O próprio governo atual, quando assumiu, tinha uma visão sobre o Irã e andou mudando os votos só no primeiro mês. Depois não mudou mais nada, porque viu que os interesses eram outros, que não tinha nada a ver. Quando a pessoa vê como as coisas são, como funcionam concretamente, a pessoa vê que é diferente. Muitas vezes, a imprensa apresenta tudo como sendo coisas fáceis,  ou como coisas corretas, e na hora que a pessoa vai examinar e vai ver, de fato, às vezes é um pouco diferente.

CMC: Como fica o futuro do setor de Defesa após o “boom” da Operação Lava-Jato e a implicação das construtoras nos esquemas de corrupção investigados, já que as empreiteiras são importantes fontes de investimento no setor?

SPG: Eu acho que, inclusive, as empresas vão assinar acordos de leniência para poderem participar. Na minha opinião, a economia brasileira precisa de um programa muito grande de investimentos em infraestrutura, o qual se estima que seria de R$ 1 trilhão por ano durante uns cinco ou seis anos. Ora, participar desse programa é algo extremamente importante para qualquer construtora internacional. Se as empresas brasileiras não participarem, quem vai participar serão as empresas coreanas, japonesas, americanas, francesas, etc. Então, eu acho que os empresários desta área já devem ter “feito ver” que isso é algo muito importante, pois são empresas muito grandes e com grande conhecimento tecnológico. Eu acho que a Operação Lava-Jato levou a essas dificuldades para as empresas, mas, por outro lado, as informações que se tem, um pouco disfarçadas, é de que varias delas já tem acordos de leniência com o governo para poder participar dos programas de investimento. Essa é uma questão a acompanhar para ver o que vai acontecer.

CMC: E sobre os projetos de Defesa em curso, como a parceria para a construção de submarinos com a França, o senhor acha que isso vai ser mantido?

SPG: Eu acho que vai continuar, sim. Apesar de muita gente não gostar e achar que é bobagem, eu acho que vai continuar porque é algo muito importante e ao qual as Forças Armadas dão muita importância, principalmente a Marinha. E um esforço muito grande que está sendo feito.

CMC: O senhor acredita na capacidade de resiliência do Brasil nesse contexto de crise ? Como o senhor acha que o pais poderia passar por essa onda com algo positivo, tanto no âmbito doméstico quanto externo ? Sera que poderíamos avaliar o atual cenário e prospectar uma saída dessa tripla crise (econômica, politica e moral corrupção) analisando o caso a partir de uma perspectiva dialética entre esses dois planos?

SPG: Eu acho que o que vai acontecer é que essa sensação de crise vai desaparecer. A imprensa vai mudar de posição e vai dizer que a crise está sendo resolvida. Se eles continuarem achando que há uma crise, o governo Temer, que eles apoiam, será prejudicado. Então, eles vão dizer que não há crise. O que existe no mundo é muito a repercussão da imprensa brasileira. Os correspondentes no Brasil se guiam muito pela imprensa. E quem é a imprensa ? Certos jornais, tal comentarista, a televisão… E a televisão no Brasil já terminou há muito tempo, não é? Mas já terminou mesmo. E não é assim que funciona. Quer dizer, você dá a noticia, e isso vai repercutindo de uma mídia na outra. Se você tem todo dia no Jornal Nacional noticias catastróficas, isso vai acabar repercutindo nas outras mídias, nas outras televisões, e assim por diante. Então, na medida em que isso diminua, toda essa sensação de crise desaparece. Naturalmente, não desaparece o desemprego por causa disso. O desemprego nos Estados Unidos é muito grande, na França é enorme, mas ninguém está preocupado e insistindo nessa sensação de crise.

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