Curso de Extensão – O Modo Asiático de Fazer a Guerra e a Construção do Estado Moderno na China

Uma análise da relação entre estratégia, operações e tática no passado e no presente

Este curso analisa a relação entre o “Modo Asiático de Fazer a Guerra” e a Construção do Estado Moderno na China, demonstrando como essa correlação impactou a formulação da Política Externa e de Segurança do país. Isto é, procura-se demonstrar como o esforço de guerra chinês ao longo da primeira metade do século XX, cotejado por experiências milenares, teve papel determinante na formação da China moderna. Também se demonstram os elementos atuais da reascensão chinesa, dando especial atenção às tendências de longo prazo que pautam o desenvolvimento daquela civilização. Expõem-se elementos comuns à Estratégia Militar e Doutrina dos demais países do Extremo Oriente de forma a ilustrar aquilo que se chama de Modo Asiático de Fazer a Guerra. O curso assim se divide em quatro módulos, em que se ilustram as etapas que percorreu a região, em especial a China, desde o choque com os impérios europeus até os dias de hoje. Finaliza-se com um debate acerca da conjuntura contemporânea, e como se pode perceber a possibilidade de transição do Modo Asiático de Fazer a Guerra na China atualmente.

Local: Auditório do Museu Militar do Comando Militar do Sul (Rua dos Andradas, 562)
Horário: 19h às 21h30
Inscrições: R$130,00
Dias: 10, 11, 17 e 18 de agosto de 2016

O curso conta com 10 horas de duração, divididas em quatro módulos:

Panorama político e histórico do Extremo Oriente até o começo do século XX: O Pensamento Estratégico Asiático

A 2ª Guerra Sino Japonesa (1937-1945): Gênese do modo asiático de fazer a guerra?

Consolidação da República Popular da China: Estado, Conflagrações e Questão Nuclear

Das Quatro Modernizações ao período contemporâneo: Qual a relevância do Modo Asiático de Fazer a Guerra para a conjuntura atual?

Dentre os benefícios incluídos no curso, destacam-se:

Certificado emitido pelo Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia;
Material didático em pen-drive com textos acadêmicos selecionados e apostila digital preparada especialmente para o curso;
Apostila impressa com espaço para anotações;
Aulas com datashow, café e lanches.

Para se inscrever, basta preencher o formulário abaixo, realizar o depósito na conta bancária do ISAPE e enviar o comprovante de pagamento para e-mail indicado.

Módulos

Panorama político e histórico do Extremo Oriente até o começo do século XX: O Pensamento Estratégico Asiático

Nesta parte, será contextualizada a filosofia de guerra oriental, do ponto de vista histórico e socioeconômico. Até o século XIX, o Império do Meio (significado em chinês da China), segundo acreditavam os chineses, compreendia tudo abaixo dos Céus. Sua relação com os reinos e impérios vizinhos era pautada pelas relações tributárias, em que o reconhecimento, pelos demais povos, da superioridade do imperador chinês era correspondido com o direito de envio de missões de tributo, permissão de comércio e a garantia de proteção por parte da China.
O sistema de civilizações tributárias na Ásia, vigente durante milênios, propiciou um desenvolvimento do conteúdo ético da sociedade que permitia a manutenção de longos períodos de estabilidade, funcional para uma região com grandes contingentes populacionais e extensa base territorial. A contrapartida, entretanto, era a relativa estagnação tecnológica frente Ocidente, que ficou evidente no contato com o sistema de Estados westphalianos no século XIX e a imposição dos Tratados Desiguais.
O conflito de interesses com o comércio inglês resultou na Guerra do Ópio (1839-1842), que foi um divisor de águas na história do sistema tributário chinês. Iniciou-se assim o “século de humilhação”, que se estendeu até 1949 com a proclamação da República Popular da China. O período foi caracterizado pelo progressivo enfraquecimento do governo central em manter a ordem interna, o desenvolvimento econômico e proteger seus interesses diante dos inimigos externos. No período, a China foi forçada a assinar uma série de tratados que davam vantagens econômicas e cediam territórios a potências estrangeiras sem contrapartidas equânimes e que, por essa razão, foram chamados “desiguais”. A China foi retalhada em esferas de influência, viu o sistema tributário que liderava ser desmantelado e assistiu à ascensão de um poderoso rival regional, o Japão. Ainda assim, a sociedade chinesa mantém traços do sistema antigo, mesmo que os coadunando com o ímpeto pela modernização que poderia retirar o país da condição subjugada em que se encontrava. Destacam-se o papel da massa, da manobra de envolvimento e da noção do Estado como finalidade nos cálculos estratégicos.

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2ª Guerra Sino Japonesa (1937-1945): Gênese do modo asiático de fazer a guerra?

Através da descrição da 2ª Guerra Sino-Japonesa (1937-1945), procura-se demonstrar como as circunstâncias dos beligerantes propiciaram um planejamento logístico diferenciado do que se observou no restante dos participantes da Segunda Guerra Mundial, alterando a percepção de dissuasão e o próprio objetivo político das batalhas que compuseram a guerra. Isso se deu em virtude da correlação entre as Instituições políticas, a Economia e a Segurança, dando origem a um modo especifico de travar a guerra condicionado às especificidades de China e Japão e do Sistema Internacional no período em questão, que encontra reflexos até os dias de hoje.
Assim, durante a 2ª Guerra Sino-Japonesa (GSJ), surgiu um legado de experiência comum a China e Japão e que, eventualmente, pode indicar elementos aos países semiperiféricos (apenas parcialmente industrializados) sobre como conduzir operações militares. No caso, caracterizada pela ênfase na engenharia de combate, na manobra e no uso de forças irregulares como formas de criar um impasse que beneficia o defensor — mesmo sem uma definição clara da conflagração (e.g. aniquilar o atacante).
Utilizam-se como ilustração as Batalhas de Changsha no nível estratégico da 2ª GSJ e da 2ª GM: a evidência da inexpugnabilidade chinesa e da necessidade japonesa de retirar os EUA do conflito para garantir a vitória completa. A seguir, detalham-se os aspectos operacionais que compõem o Modo Asiático de fazer a Guerra e que podem ser empiricamente observados em Changsha: o emprego da engenharia, das manobras de envolvimento (falsas e verdadeiras) e a ação de grupos irregulares (guerrilha). Tais aspectos constituem até os dias de hoje um dos fundamentos doutrinários comuns a comunistas e nacionalistas na República Popular e em Formosa. Importa notar que ambos concebem a batalha como um evento não linear, travado em profundidade, em dimensões múltiplas e simultâneas. Lidam com a ideia de, ao mesmo tempo, empreender combates no fronte, ao longo da linha de suprimentos e na retaguarda. Em suma, de simultaneamente fazer frente a forças em terra, mar e ar; em profundidades (distâncias) e altitudes diversas.

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Consolidação da República Popular da China: Estado, Conflagrações e Questão Nuclear

Na sequência, o curso procura ilustrar como as experiências históricas e da 2ª GSJ se fizeram presentes na construção do novo Estado chinês após a Revolução, informando diretamente a formulação de sua PES. Desse modo o minicurso, após considerações sobre a 2ª GSJ e a constituição de um possível modo asiático de fazer a guerra, irá abordar a sua influência nos grandes eventos que impactaram a República Popular da China ao longo do século XX.
Será abordado o período de reconstrução física, política e institucional da China (1949-1971), em que há a disputa entre dois projetos para a construção do Estado chinês. No cento do debate está a questão da construção de capacidades e preparação para a Guerra Nuclear. A Guerra da Coreia e a guerra aérea de atrito com Taiwan, dentro da estrutura da Guerra Fria, levaram os tomadores de decisão chinesa a adotarem políticas internas, externas e de segurança espelhadas nas experiências da 2ª GSJ. Na Península Coreana, foram empregadas não apenas fortificações de campanha (madeira, areia e terra), mas verdadeiras obras de arte de engenharia: estradas, pontes, aeródromos para cargueiros leves, em suma, um sem número de edificações que lembram mais a engenharia tradicional que, propriamente, a de combate. Isso fica documentado nos túneis que permitiam o trânsito de caminhões e, até mesmo, tanques. Mais tarde, a coletivização do trabalho em ritmo acelerado, implementada no Grande Salto Adiante, teve na sua gênese considerações pertinentes aos aspectos estratégicos e operacionais apreendidos durante a II GSJ. Desde 1963, sob a direção de Peng Dehuai, teve início a construção da “Grande Muralha Subterrânea”, que converteu a engenharia de combate de serviço auxiliar na batalha em um dos fundamentos da própria estratégia chinesa. A Grande Muralha Subterrânea, revelada oficialmente pelo governo chinês em 2009, é parte integrante da Terceira Linha de Defesa e consiste em um sistema de túneis que visa tornar crível a capacidade chinesa de segundo ataque em caso de uma conflagração nuclear.

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Das Quatro Modernizações ao Período Contemporâneo: Qual a relevância do Modo Asiático de Fazer a Guerra para a conjuntura atual?

Por fim, expõem-se considerações sobre os impactos dos períodos anteriores para a ascensão da China. A partir de 1971, a aproximação entre China e Estados Unidos, inaugurou-se uma nova fase da Guerra Fria também permitiu à China modernizar sua estrutura econômica e seu poderio militar. Será sustentado que a China, apesar da reorientação da política externa, teve sua preparação militar ainda articulada dentro do pensamento que conceituamos como o modo asiático de fazer a guerra. Isso decorre do fato de que a preparação para a guerra convencional ou nuclear continuou contando com a massa e com a engenharia como base para fazer frente aos dois maiores adversários militares, URSS e EUA.
Também será abordado o período pós-Guerra Fria, em que China e Estados Unidos voltam a afastar-se. O fim da bipolaridade no sistema internacional retira dos EUA o esteio da sua formulação em política externa e de segurança, isto é, a rivalidade com a URSS. Essa ausência de um consenso em torno de sua Grande Estratégia impede que sejam articuladas respostas com visão de longo prazo para as questões envolvendo a manutenção da hegemonia estadunidense. Nesse contexto, uma China em ascensão é eventualmente vista como uma competidora pela liderança mundial. A partir dos desdobramentos dessa dinâmica na Ásia e no sistema internacional, sustentaremos que o momento atual chinês pode trazer uma ruptura ou transição de sua formulação de política externa e de segurança que, ao longo de maior parte do século XX, foi influenciada em grande maneira pelo o que denominamos de modo asiático de fazer a guerra.

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