AEL Sistemas

Embraer fecha empresa que desenvolvia vants


A Embraer anunciou, na última semana (07/01), que decidiu encerrar as atividades da Harpia Sistemas, que desenvolvia aviões não tripulados (conhecidos como vants ou drones). Segundo a empresa, a restrição orçamentária atual foi a principal razão da medida, mas devido ao “fator estratégico” do projeto, ele continuará a ser desenvolvido por outros meios. Harpia Sistemas foi criada em 2011, em parceria da Embraer com a AEL Sistemas, com a Avibras integrando a sociedade a partir de 2013.

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Foto: Embraer.

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A versão brasileira do caça Gripen NG


Conheça a ‘versão personalizada’ do caça sueco Gripen NG que o Brasil comprou. Segundo a SAAB, diversas adaptações exigidas pelos brasileiros fizeram o avião ficar quase US$ 1 bi mais caro. Por exemplo, a FAB adquiriu 36 caças com tela panorâmica, a qual somente os estadunidenses F-35 possuem e que será produzida no Rio Grande do Sul pela AEL.

Foto: SAAB / divulgação.

Foto: SAAB / divulgação.

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Brasil amplia uso de drones em suas operações


No Brasil, veículos aéreos não tripulados são usados em missões de vigilância terrestre e marítima de fronteiras, além de varreduras antibomba e perícias de obras de engenharia civil. Tendência mundial é que seu uso aumente nos próximos anos.

Fonte: Patrik Stollarz / AFP.

Fonte: Patrik Stollarz / AFP.

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A emergência do polo espacial gaúcho: o programa espacial brasileiro e os desafios para a integração sul-americana


Bruna Coelho Jaeger, pesquisadora e Diretora-adjunta do ISAPE. Graduanda do curso de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Pedro V. P. Brites, pesquisador e Diretor-Geral do ISAPE. Mestrando em Estudos Estratégicos Internacionais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Fonte: Arte ZH / Agencia RBS.

Fonte: Arte ZH / Agencia RBS.

Desde a última década, assiste-se a uma busca do Brasil por maior inserção internacional, o que se traduz no aumento dos investimentos em modernização da Defesa do país. O acirramento de disputas no plano regional e internacional, combinada com a necessidade brasileira de proteção dos seus recursos energéticos e do seu território, mostram-se como determinantes fundamentais para que o Brasil avance no quesito Defesa Nacional. Segundo o Ministério da Defesa, entre 2011 e 2012 o país elevou em 34% os seus investimentos militares, ocupando o 10° lugar no top 15 mundial em orçamento de defesa (IISS, 2013). Além da ameaça que potências extrarregionais representam para a integridade territorial do país, na sua Estratégia Nacional de Defesa (Decreto N° 6.703, 18 dez 2008), o Brasil passa a focar na estrita relação entre Defesa e desenvolvimento nacional:

Estratégia nacional de defesa é inseparável de estratégia nacional de desenvolvimento. Esta motiva aquela. Aquela fornece escudo para esta. Cada uma reforça as razões da outra. Em ambas, se desperta para a nacionalidade e constroi-se a Nação. Defendido, o Brasil terá como dizer não, quando tiver que dizer não. Terá capacidade para construir seu próprio modelo de desenvolvimento (BRASIL, 2008).

A nova base legal para as compras, contratações, desenvolvimento de produtos e sistemas de defesa brasileira, através da Lei de Fomento à Base Industrial de Defesa (Decreto n° 7970, 28 mar 2013), amplia o antigo conceito adotado pelo país de “obtenção por demanda” para então “obtenção de capacidades”. Dessa forma, criam-se as condições para o que o Brasil proteja seu território, ao mesmo tempo em que inova e se torna competitivo. Por essa via, foi lançado Programa Estratégico de Sistemas Espaciais (PESE), criado para atender necessidades estratégicas das Forças Armadas e da sociedade brasileira. A coordenação e implantação dos sistemas espaciais foi atribuída pelo Ministério da Defesa e pelo Comando da Aeronáutica para a Comissão de Coordenação e Implantação de Sistemas Espaciais (CCISE). O objetivo do PESE é prover infraestrutura espacial para ser usada estrategicamente e de modo potencializador no Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul (SISGAAZ), no Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (SISFRON), no Sistema de Defesa Aeroespacial Brasileiro (SISDABRA), no Sistema de Proteção da Amazônia (SIPAM) e afins.

Nesse contexto, também se destaca o edital de seleção pública do plano Inova Aerodefesa, criado em 17 de maio de 2013, que destinará R$ 2,9 bilhões para apoiar a inovação tecnológica nos setores aeroespacial, de aeronáutica, de defesa e de segurança pública. O edital faz parte do Plano Inova Empresa, lançado em março de 2013 pelo governo federal e que prevê a articulação de diferentes ministérios e apoio por meio de crédito e financiamento, em um total de R$ 32,9 bilhões a ser aplicado em inovação até 2014 (BRASIL, 2013). Voltado para as indústrias e centros de pesquisa, o Inova Aerodefesa visa fortalecer o setor por meio de ações estratégicas para estimular a parceria entre iniciativa privada e instituições de pesquisa, com descentralização de crédito e subvenção econômica para o investimento em programas de inovação tecnológica. Com recursos da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep/MCTI) e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o edital é dividido em quatro linhas temáticas: 1) Aeroespacial, envolvendo propulsão espacial, plataformas e satélites espaciais e desenvolvimento de aeronaves mais eficientes; 2) de Defesa, para sensoriamento remoto, sistemas e subsistemas de comando e controle para defesa; 3) de Segurança Pública, para desenvolvimento de inovações em sistemas de identificação biométrica, sistemas de informações e diversos tipos de armas não letais; 4) e de Materiais Especiais, para aplicações diversas e na indústria de defesa, incluindo ligas metálicas à base de aço (FINEP, 2013).

Ligados à chamada Terceira Revolução Industrial, sob certos aspectos, os Polos Tecnológicos representam nos tempos atuais o que as grandes regiões industriais representavam na Primeira Revolução Industrial. Um Polo Tecnológico, também chamado de Parque de Ciência e Tecnologia ou de Tecnopolo, é um centro tecnológico que reúne diversas atividades de pesquisa e desenvolvimento (P&D) em áreas de alta tecnologia: como institutos, centros de pesquisa, empresas e universidades. Dessa forma, facilitam-se os contatos pessoais e institucionais entre esses meios, produzindo uma economia de aglomeração através de um cluster industrial.i Portanto, o efeito de sinergia impulsiona o desenvolvimento de inovações técnicas e processuais. Entende-se que o impacto da constituição de tecnopolos no segmento aeroespacial impactam de forma decisiva no desenvolvimento e na inserção internacional do Brasil. Portanto, a seguir, serão apresentadas as principais características de um recente tecnopolo nacional, apontando as suas contribuições e desafios para o Programa Espacial Brasileiro.

A proposta de estabelecimento de um Polo Espacial no Rio Grande do Sul começou a evoluir após a missão do Governo do Estado do Rio Grande do Sul a Israel. Durante a missão em maio de 2013, um protocolo de intenções entre o Governo Estadual e a empresa Elbit/AEL Systems foi assinado. Esse protocolo tinha como objetivo “promover a pesquisa, desenvolvimento e inovação tecnológica no setor espacial no Rio Grande do Sul, através de incentivos financeiros, fiscais e de infraestrutura para a criação do Polo Espacial”. A busca pelo estabelecimento de um polo espacial no Rio Grande do Sul teve como um grande propulsor o lançamento do Edital Inova Aerodefesa, promovido pela FINEP. A possibilidade da captação dos recursos oferecidos pelo edital na ordem de 2,9 bilhões de reais viabilizaram a aproximação efetiva com a AEL e a projeção de estabelecimento do polo. Somam-se a isso as previsões do governo federal de investir cerca de 9 bilhões de reais para a compra de 16 satélites nos próximos anos. Cabe destacar que o crescimento potencial do mercado de venda de satélites nos próximos anos também subvencionaram a aproximação entre o governo gaúcho e a empresa israelense.

A escolha pelo Rio Grande do Sul como sede do segundo maior polo espacial do Brasil (menor somente que o Parque Tecnológico de São José dos Campos-SP) deve-se ao alto potencial do Estado na área de pesquisa e desenvolvimento de insumos para o setor. O polo que será constituído por empresas, universidades, instituições de pesquisa e órgãos governamentais, claramente demonstra os benefícios que a proximidade geográfica e a sinergia no trabalho trazem para o desenvolvimento de tecnologia e para o fornecimento de insumos ao mercado de satélites.

A indústria eletroeletrônica gaúcha está voltada para componentes aeronáuticos. A AEL, empresa líder do polo espacial gaúcho, já atua no segmento aeronáutico como fornecedora da Embraer. Nesse sentido, a AEL irá agregar a expertise da Elbit, que possui reconhecimento internacional na área de produtos tecnológicos voltados para defesa, à cooperação técnica internacional — com a Rússia na parte de satélites, com a Ucrânia em lançadores e com a empresa alemã Grob Aircraft AG na área de controle de satélites. Ou seja, através de sua subsidiária, a Elbit irá compartilhar conhecimento técnico na área de desenvolvimento espacial.

O início do projeto se deu através da entrada da AEL na segunda etapa do edital Inova Aerodefesa, da Agência Brasileira da Inovação (FINEP, 2013). A empresa gaúcha apresentou o projeto piloto de um microssatélite, no valor de R$ 43 milhões, se classificando ao lado de outras 69 empresas de todo o país. Para ampliar o potencial do projeto, que ainda passará por mais duas etapas de avaliação pela FINEP, a empresa se aproximou de instituições de ensino superior e outras empresas que irão compor o polo de produção do satélite.

Nesse contexto, a Rede Espacial gaúcha — um grupo permanente coordenado pelo governo estadual, que integra a indústria, a academia e as demandas do governo federal —, deve se reunir a cada 15 dias para discutir as demandas reais com todos os atores da iniciativa. Atualmente, os atores que compõem o polo são os seguintes:

I) Universidades:

  • UFRGS, responsável pelo  processamento de bordo e análise de radiação,
  • UFSM, a quem compete a estrutura de operação no solo,
  • Unisinos, que fica encarregada dos sensores, da parte de microeletrônica e do propulsor (que pode levar ao controle de órbita do MMM-3),
  • PUCRS, cujas responsabilidades recaem sob as antenas, o transpônder digital e possível operação no solo;

II) Empresas:

  • AEL: chassis do satélite, defesa eletrônica, componentes espaciais e interface de comunicação,
  • Digicom: fabricação de dispositivos mecânicos e suprimento de energia,
  • GetNet: serviços de comunicação,
  • TSM: desenvolvimento, qualificação e produção de antenas.

A maquete do satélite a ser produzido no polo espacial gaúcho, cuja característica mais relevante é a produção totalmente nacional de seus componentes, foi apresentada em outubro de 2013. O MMM-1 será o primeiro microssatélite brasileiro para aplicações militares. Ele pesa menos de 10 kg, tem cerca de 30 cm de altura, e poderá ser usado para fins de comunicação e monitoramento (sensoriamento remoto), entre outras missões. Assim, inicia-se uma nova fase da busca brasileira por aquisições de capacidades espaciais, já que o Brasil, hoje, não produz satélites. Assim, fica vulnerável à dependência de outros países para suprir a demanda nacional por esse tipo de tecnologia. O MMM-1 não terá controle de órbita, ou seja não terá guiagem que lhe permita corrigir sua trajetória e orientação correta em relação à Terra. Por isso, o tempo máximo que deve ficar em órbita é cerca de dois anos, já que ficará vulnerável à ação da gravidade e à pressão solar. Apesar disso, a experiência com o satélite permitirá ao Brasil reter conhecimento no que tange ao ambiente espacial, e o leva investir na utilização de novos materiais capazes de funcionar em temperaturas diversas, por exemplo. Através do conhecimento reunido a partir do lançamento do MMM-1, devem ser projetados o MMM-2 e o MMM-3, esse último com controle de órbita e perspectiva de competir no mercado internacional. A produção do MMM-1 abre também novas possibilidades. Segundo o vice-presidente de Operações da AEL, Vitor Neves, a empresa terá “capacidade de produzir aviônicos e desenvolver sistemas de defesa inéditos no Brasil, caso dos sistemas de guerra eletrônica, veículos aéreos não-tripulados, tecnologia eletro-óptica, além de sistemas de guiagem de armamento e sistemas espaciais” (APRESENTADA, 2013).

A princípio, o MMM-1 será lançado do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA) no Maranhão em dezembro de 2015. Após dez anos da tragédiaii que marcou a história do programa espacial brasileiro e acabou retardando o desenvolvimento do mesmo, Alcântara volta a estar no cerne da busca brasileira pela aquisição de capacidades espaciais, já que sua reconstrução está perto de ser concluída. A base de Alcântara destaca-se, especialmente, por sua privilegiada posição geográfica, derivada da sua proximidade com a linha do Equador. Justamente por isso, o CLA é o único concorrente do Centro Espacial de Kourou situada na Guiana Francesa. Assim, a base brasileira configura-se como uma das mais privilegiadas do mundo. Em 2010, um foguete de médio porte foi lançado ao espaço do CLA, a operação foi considerada um sucesso. O VSB-30 realizou experimentos científicos no ambiente de microgravidade e trouxe de volta a sua carga com segurança para a base de Alcântara.

Com o corrente processo de reconstrução do CLA, combinado com a maior preocupação do Brasil em se inserir no setor aeroespacial, o país reforça a busca por autonomia através do desenvolvimento de capacidades tecnológicas para o setor. Assim, o governo federal busca maximizar os ganhos potenciais da parceria com centros de pesquisa e com a iniciativa privada, impulsionando a sinergia para o fortalecimento nacional frente aos desafios globais. De certa forma, o desenvolvimento do setor aeroespacial no Brasil, embora ainda esteja no seu estágio inicial e com muitos desafios a serem superados, pode ser entendido como um importante passo para a consolidação de um complexo acadêmico-industrial-militar no país. Como exemplo, apresenta-se o Polo Espacial Gaúcho que é vertebrado nessa lógica de simbiose ativa entre o governo, as universidades e a iniciativa privada. Além disso, esse tecnopolo reflete a importância do país promover um aproveitamento efetivo e interligado das suas regiões, conectando diferentes cadeias produtivas, como nesse caso entre o Rio Grande do Sul e o Maranhão.

Tais fatores se mostram como decisivos para a inserção do Brasil na era da digitalização, a qual é marcada por uma transição tecnológica da matriz produtiva de petróleo/aço para carbono/alumínio (MARTINS, 2013). Além disso, visando à garantia da autonomia brasileira no que concerne tecnologia, comunicações e redes, as recentes ameaças advindas dos casos de espionagem estadunidense e canadense reforçam a necessidade de o Brasil acelerar o processo de modernização em curso. Afora a imprescindibilidade de proteger o seu território e garantir a soberania sobre o Pré-sal, é imperativo que o Brasil busque disseminar o desenvolvimento dessas capacidades no âmbito regional. O projeto de construção da rede de fibra óptica sul-americana impulsionaria o desenvolvimento da região, combinado com a afirmação da soberania e da autonomia da América do Sul frente a potências extrarregionais (e.g. UNASUR…, 2013). É fundamental que o Brasil atue como principal provedor da integração produtiva e acadêmica, visto que possui os meios de pagamento e a disposição política para tal. Em termos regionais, esse processo se tornaria mais positivo à medida em que diminui os custos e aumenta os ganhos de escala, pois se estabeleceria o aproveitamento da conexão entre as diferentes cadeias produtivas da região (OLIVEIRA, 2012). Com isso, o Brasil fortaleceria a sua liderança regional, ao mesmo tempo em que diminuiria as assimetrias entre os países sul-americanos.

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Notas:

i Economias de aglomeração são uma etapa do processo de industrialização em que ocorre a concentração espacial da alocação de companhias produtivas ou de atividades econômicas em uma região geograficamente delimitada (PENA, [S.d], online). Nesse caso, também pode ter a característica de um cluster industrial, que é uma concentração de empresas em locais específicos que mantem entre si um poder considerável de inovação tecnológica e operacional. Isso decorre do fato de competirem e cooperarem simultaneamente nesse espaço geográfico delimitado. O cluster também agrega órgãos do Governo para suporte, educação e treinamento, em outros termos, estabelecem-se janelas de oportunidade para coordenação e aperfeiçoamento mútuo em setores de interesse comum.

ii No dia 22 de agosto de 2003, o VLS-1 V03 (Veículo Lançador de Satélites) brasileiro explodiu por volta das 13h30 na base de Alcântara, três dias antes do seu lançamento, matando 21 cientistas. As causas do acidente nunca foram plenamente esclarecidas, apesar disso convenciona-se afirmar que tratou-se de um acidente, em que pese as suspeitas de sabotagem.

Referências:

APRESENTADA maquete do satélite do Polo Espacial Gaúcho. Zero Hora, Porto Alegre, Planeta Ciência, 04 de outubro de 2013. Disponível em: <http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/geral/planeta-ciencia/noticia/2013/10/apresentada-maquete-do-satelite-do-polo-espacial-gaucho-4290496.html&gt;. Acesso em: 01 nov 2013.

BRASIL. Ministério da Defesa. Estratégia Nacional de Defesa. Decreto nº 6.703, de 18 de dezembro de 2008. Brasília, 2008.

BRASIL. Presidência da República. Casa Civil. Decreto nº 7.970, de 28 de março de 2013. Regulamenta dispositivos da Lei nº 12.598, de 22 de março de 2012, que estabelece normas especiais para as compras, as contratações e o desenvolvimento de produtos e sistemas de defesa e dá outras providências. Brasília, 2013.

FINEP. Edital de seleção pública conjunta FINEP/BNDES/MD/AEB de apoio à inovação tecnológica nos setores aeroespacial, defesa e segurança — Inova Aerodefesa. Brasília, abril de 2013.

IISS (International Institute of Strategic Studies). The Military Balance 2013: the annual assessment of global military capabilities and defence economies. 2. rev. ed. London: Routledge, 2013. (The Military Balance Series).

MARTINS, José Miguel Quedi (Org.). Relações internacionais contemporâneas 2012/2: estudos de caso em política externa e de segurança. Porto Alegre: Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia, 2013.

OLIVEIRA, Lucas Kerr de. A energia como recurso de poder na política internacional: o papel do centro de decisão energética frente à geopolítica do petróleo e os desafios da transição energética. 2013. Tese (Doutorado em Ciências Políticas) – UFRGS, 2012.

PENA, Rodolfo Alves. Economias de Aglomeração. Brasil Escola, [S.l.], [S.d.]. Disponível em: <http://www.brasilescola.com/geografia/economias-aglomeracao.htm>. Acesso: 18 nov 2013.

UNASUR desarrolla un mega-anillo de fibra óptica que pondrá fin a la dependencia Internet con EEUU. APCS, [S.l.], 14 de janeiro de 2013. Disponível em: <http://www.apc-suramerica.net/?post_type=post&p=6055>. Acesso: 01 nov 2013.

O sucesso de aeronaves não tripuladas Vants / drones no Brasil


O voo do falcão

Projetos militares contribuem para o aquecido setor de aeronaves não tripuladas

Revista FAPESP, ed. 211, setembro de 2013 – por Rodrigo de Oliveira Andrade

Primeira versão do Falcão nos laboratórios da Avibras. Protótipo é usado para adequação aos requisitos do Ministério da Defesa. © AVIBRAS

Um projeto ambicioso, desenvolvido para fins militares, poderá levar o Brasil a se tornar um importante polo de pesquisa, desenvolvimento e produção de novas tecnologias relacionadas aos veículos aéreos não tripulados, os vants – também conhecidos como drones. Idealizado para uso das Forças Armadas, o Falcão, como foi batizado, será o maior vant militar nacional. Se o projeto avançar, a aeronave terá 11 metros de envergadura, de uma ponta a outra da asa, e autonomia mínima de 16 horas. Ele poderá atuar em operações de vigilância marítima e de fronteiras, missões de busca e salvamento, no combate ao tráfico de drogas, crimes ambientais e na segurança e monitoramento de grandes eventos, como os Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro, ano em que a aeronave deverá ser concluída. Até agora, cerca de R$ 85 milhões já foram investidos por parte da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), de institutos de pesquisa e da própria indústria.

O Falcão começou a ser desenvolvido pela Avibras no final da década passada. A empresa brasileira com sede em São José dos Campos, interior paulista, em parceria com o Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) da Aeronáutica, contou com os sistemas de navegação e controle de outra empresa da mesma cidade, formada no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), a Flight Technologies. Desde fevereiro deste ano, o Falcão integra a linha de produtos da Harpia Sistemas, empresa criada a partir da associação entre a Embraer Defesa & Segurança, braço militar da Embraer, e a AEL Sistemas, com sede em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, subsidiária da Elbit Systems, uma das maiores fabricantes de produtos de defesa de Israel – a mesma a fornecer os primeiros drones para uso da Força Aérea Brasileira (FAB) em 2010. Em janeiro deste ano, a Avibras também se tornou acionista da Harpia. “Desde então conduzimos estudos de configurações para atender aos requisitos operacionais das Forças Armadas para um sistema de vant capaz de cumprir missões de inteligência, vigilância e reconhecimento”, diz Rodrigo Fanton, presidente da Harpia. O primeiro protótipo do Falcão está sendo usado como ponto de partida para a adequação aos requisitos apresentados pelo Ministério da Defesa, que incluem um conjunto de sensores, sistema de comunicação de dados e uma estação de controle em solo.

acauã Projetado pelo DCTA para demonstrar em voo novas tecnologias para vants

A aeronave terá cerca de 800 quilos (kg), podendo transportar mais combustível e equipamentos do que outros drones da mesma categoria a uma altura de 5 mil metros. Dentro do veículo aéreo, no lugar do piloto, poderão ser instalados sensores, câmeras e radares, entre outros itens. Boa parte da estrutura do Falcão foi desenvolvida com tecnologia nacional, como os sistemas de eletrônica de bordo, controle e navegação. “Ele terá dimensões equivalentes ao Super Tucano, aeronave turboélice da Embraer para ataque tático”, comenta Flavio Araripe d’Oliveira, coordenador do projeto vant no DCTA. “Vants de médio e grande porte, como o Falcão, são controlados do solo por técnicos em contêineres equipados com computadores e sistemas de comunicação”, diz.

O Falcão utiliza outro vant brasileiro como plataforma de testes para o sistema de navegação e controle: o Acauã, um drone de 150 kg e 5 metros de envergadura concluído em 2010. Ele foi desenvolvido pelo DCTA, centros de pesquisa do Exército (CTEx) e da Marinha (IPqM) (ver Pesquisa FAPESP n° 185) e pela Avibras. Foram realizados dezenas de voos experimentais na Academia da Força Aérea, em Pirassununga, interior de São Paulo. Hoje o Acauã é utilizado pelo DCTA, Exército e Marinha, e pelas empresas Flight Technologies e Bossan Computação Científica (BCC), do Rio de Janeiro, num novo projeto, agora voltado à concepção de uma tecnologia de pouso e decolagem automáticos, que já apresentou bons resultados nos primeiros experimentos em pista realizados em agosto. O projeto conta com financiamento de R$ 4 milhões da Finep. “Desenvolvemos um sistema com sensores de aproximação com DGPS, que garante um posicionamento muito preciso por satélite, e radar altímetro capaz de medir a altura da aeronave em relação ao solo. Até agora, pouso e decolagem eram realizados apenas sob o comando de um operador”, explica D’Oliveira.

Turbina para vants de grande porte no DCTA

Também no DCTA pesquisadores do Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), em parceria com professores do ITA e engenheiros da empresa TGM Turbinas, com sede em Sertãozinho, interior paulista, trabalham em outro projeto que poderá impulsionar o setor brasileiro de drones. Trata-se de um motor turbojato movido a querosene de aviação que pode ser usado em vants com peso máximo de 1,2 tonelada. A Turbina Aeronáutica de Pequena Potência (TAPP) é a primeira a ser produzida no Brasil com características de durabilidade e potência de 5 mil newtons (N), força capaz de impulsionar uma aeronave de até 1,5 tonelada. “Planejamos um grupo de turbinas que possam ter aplicações em vants, mísseis e uma linha para geração de energia”, diz Alexandre Roma, da TGM, um dos engenheiros responsáveis pelo projeto. Ele conta que o equipamento não será usado no Falcão, mas instalado inicialmente em alvos aéreos para treinamento de pilotos em aviões de combate.

Produção em série
Em julho, a turbina foi testada pela primeira vez no banco de provas do IAE. Segundo o engenheiro mecânico José Francisco Monteiro, coordenador do projeto, todos os componentes da TAPP foram fabricados no Brasil, exceto o rolamento para a sustentação de seu eixo. Um dos objetivos é qualificar a mão de obra brasileira para sua produção em série. “Como essa turbina pode ser instalada em mísseis de longo alcance, sua comercialização tem sido dificultada, devido aos tratados de não proliferação de armas nucleares. A alternativa é fabricar a turbina no Brasil”, avalia Monteiro. Novos testes estão programados até o fim deste ano com o objetivo de fazê-la atingir a rotação máxima de 28 mil rotações por minuto. O projeto conta com financiamento de R$ 30 milhões da Finep. A agência já firmou 23 contratos e convênios, num total de R$ 69 milhões, voltados ao trabalho de pesquisa e desenvolvimento tecnológico de vants no Brasil, conta William Respondovesk, chefe do Departamento das Indústrias Aeroespacial, Defesa e Segurança da Finep.

 Vants 211_21 Revista FAPESP

As vantagens inerentes ao uso dos drones em operações militares – sobretudo pelos Estados Unidos, após os atentados de 11 de setembro de 2001 – têm atraído cada vez mais a atenção de vários países. Entre 2005 e 2012, por exemplo, o número de nações que adquiriram essa tecnologia subiu de 41 para 76. Nesse mesmo período, o número de programas de pesquisa voltados para essa área nesses países saltou de 195 para 900, impulsionando um mercado em contínua evolução. Os norte-americanos ainda controlam boa parte desse mercado. Juntas, as empresas North Grumman e General Atomics Aeronautical Systems detêm 63% de toda a produção mundial de drones, de acordo com o Government Accountability Office dos Estados Unidos.

Também os gastos anuais em pesquisa, desenvolvimento e comércio dessas aeronaves devem dobrar na próxima década, chegando aos US$ 12 bilhões – totalizando US$ 90 bilhões nos próximos 10 anos –, como mostra o relatório World unmanned aerial vehicles systems, market profite and forecast 2013, divulgado em junho pela consultoria norte-americana Teal Group, especializada nas áreas aeroespacial e de defesa. O Departamento de Defesa dos Estados Unidos deve seguir líder nesse setor. Israel vem logo em seguida. O país foi responsável por 41% dos drones exportados entre 2001 e 2011, segundo a Stockholm International Peace Research Institute, organização voltada à realização de pesquisas em questões sobre conflitos e segurança internacionais.

apoena Usado no monitoramento ambiental da hidrelétrica de Jirau, em Rondônia

Obtenção de dados
Avanços recentes em áreas de tecnologia computacional, além do desenvolvimento de materiais mais leves e de avançados sistemas globais de navegação, também têm atraído a atenção de pesquisadores, que usam drones para a obtenção de dados em áreas de difícil acesso. No dia 13 de junho a revista Nature publicou um artigo mostrando como esse tipo de tecnologia pode ser útil para o mundo acadêmico. Pesquisadores da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, por exemplo, têm usado vants para medir jatos de ventos que sopram no continente antártico. Isso poderá ajudá-los a entender a dinâmica que deu origem à formação das geleiras marinhas ao redor da Antártida. Também os biólogos aderiram aos vants em seus trabalhos de campo. Já na Índia, a World Wildlife Fund (WWF) tem usado os drones para detectar a presença de caçadores.

Esse crescimento para além do âmbito militar tem se refletido no Brasil. Nos últimos anos, pelo menos cinco empresas passaram a investir em pesquisa e desenvolvimento de novas aeronaves. A AGX é uma delas. Com sede em São Carlos, interior paulista, a empresa desde 2009 trabalha com o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Sistemas Embarcados Críticos (INCT-SEC), com sede na Universidade de São Paulo (USP) de São Carlos, na concepção de soluções voltadas para o uso de vants na agricultura, meio ambiente e mineração. “Esse é o setor mais dinâmico, e o de maior crescimento, da indústria aeroespacial e de defesa em todo o mundo”, diz Adriano Kancelkis, diretor-presidente da AGX, empresa que contou com o apoio do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (Pipe) da FAPESP.

VSX, nova aeronave das empresas AGX e Aeroálcool para transporte de radar

Com características distintas, mas com várias possibilidades de adaptação para missões na agricultura, dois de seus drones, Tiriba e Arara II, possuem tecnologia nacional. Podem ser usados em levantamentos aerofotográficos com câmeras convencionais de alta definição, sensores e câmeras termais e multiespectrais. “Essa tecnologia é capaz de identificar com precisão a existência de pragas e falhas em lavouras e áreas atingidas por erosão e assoreamento de rios”, explica Kancelkis. Lançado em 2011, o Tiriba tem motor elétrico e pode atingir os 100 km/h, se mantendo em operação por até meia hora. O drone está sendo usado num projeto-piloto de monitoramento ambiental em parceria com a Polícia Militar Ambiental do Estado de São Paulo. “Já realizamos alguns voos, mas o vant ainda está em fase de certificação na Agência Nacional de Aviação Civil [Anac], instituição responsável pela emissão de autorizações para voos dessas aeronaves”, diz.

Agricultura de Precisão
A empresa também tem investido em novos modelos, como o VSX, aeronave desenvolvida em parceria com a Aeroálcool, com sede em Franca, interior paulista, e o INCT-SEC. Com autonomia de voo de 20 horas, o vant pode cumprir missões com até 4 mil km de alcance numa velocidade de 200 km/h. “O VSX foi projetado para carregar um radar do tipo SAR que permite mapear, no caso de uma floresta, não só a copa das árvores, mas também o que está por debaixo delas, no solo”, conta Kancelkis. O projeto recebeu R$ 2 milhões da Finep. A ideia é que o VSX seja utilizado pela fabricante do radar, a Orbisat, com sede em Campinas, em áreas de conflito urbano, calamidades e no monitoramento de fronteiras. A AGX também acaba de firmar uma parceria com a Universidade de Purdue, nos Estados Unidos. “O objetivo é atuar no segmento de agricultura de precisão naquele país, além de desenvolver novas tecnologias para sensoriamento remoto”, diz.

Imagem captada por vant: informações sobre falhas na lavoura e para estimar a produção

Entre 2010 e 2013, a XMobots, empresa com sede em São Carlos, realizou um trabalho de mapeamento e quantificação do desmatamento em torno da Usina Hidrelétrica de Jirau, em construção no rio Madeira, em Rondônia. “O objetivo era que nosso vant, o Apoena, fizesse a captação de imagens que revelassem se a atividade realizada pelas empresas estava de acordo com a legislação ambiental”, explica Giovani Amianti, um dos sócios da XMobots, que também recebeu financiamento do Pipe em 2007. Depois de alguns meses, as imagens produzidas pelo drone passaram a ser usadas como parâmetro para determinar o metro quadrado que cada empresa havia desmatado. O Apoena realizou operações durante 18 meses e em seguida foi substituído pelo modelo Nauru por mais um ano. “Agora o Apoena está numa fase de maturação tecnológica. Pretendemos lançar uma nova versão no início de 2014; uma aeronave maior, com capacidade de voo superior a 8 horas, mais segura e capaz de operar em cidades”, diz Amianti.

O Nauru é um drone menor que o Apoena, com autonomia de 5 horas, 15 kg e envergadura de 2,3 metros. Em maio, o vant obteve da Anac o Certificado de Autorização de Voo Experimental. “Com isso nos tornamos a única empresa do país autorizada pela Anac a fazer voos voltados à pesquisa e desenvolvimento de drones. Até então, apenas a Polícia Federal possuía vants civis aptos a voar no Brasil”, conta Fábio Henrique Assis, diretor da XMobots. Mas ele explica que o trâmite legal para essa aeronave é mesmo mais simples, já que o Nauru será usado para fins agrícolas, em espaço aéreo segregado. Em junho, durante uma feira de geotecnologia realizada em São Paulo, a empresa lançou o Echar, um novo modelo de 2,1 metros de envergadura, 6 kg e autonomia de 60 minutos. Suas aplicações variam do monitoramento de garimpo ilegal, extração irregular de madeira, invasão de áreas ambientais à previsão de produção agrícola. “O Echar foi desenvolvido a partir da demanda de nossos clientes”, conta Amianti.

Vants - Revista FAPESP - DCTA - AGX - Avibras - XMOBOTS© ANA PAULA CAMPOS

Também em Gavião Peixoto, município próximo a São Carlos, no interior de São Paulo, pesquisadores da Embrapa Instrumentação usam drones na área de agricultura de precisão. Um modelo diferente, semelhante a um mini-helicóptero, faz sobrevoos periódicos em plantações de laranja para detecção do greening, doença que afeta o amadurecimento dos frutos, deixando as folhas das plantas amareladas. “Usamos vants em atividades agrícolas desde 1998, com o projeto de Aeronave de Reconhecimento Assistida por Rádio e Autônoma (Arara) em parceria com o professor Onofre, da USP” (ver Pesquisa FAPESP n° 123), conta o engenheiro eletrônico Lúcio Jorge, da Embrapa. “Investimos no desenvolvimento de metodologias de processamento de imagens para drones de baixo custo.” O mini-helicóptero sem piloto, usado para pulverização no controle de pragas em culturas de arroz, soja e trigo, foi adquirido pela Embrapa da empresa Rotomotion, dos Estados Unidos. “Esse projeto nos permitiu desenvolver softwares e sistemas de captura de imagens para as diferentes aplicações agrícolas no Brasil”, diz o pesquisador. “Mas o projeto requer mais investimento, sobretudo pelo fato de a Rotomotion ser uma empresa pequena, tendo dificuldades em atender às demandas no Brasil, como treinamentos e ajustes no sistema.” A Embrapa conta ainda com sistemas multirrotores, os chamados multicópteros, com software livre, que são uma opção tecnológica mais barata.

Mesmo com o desenvolvimento acelerado do setor, os voos de vants ainda carecem de regras específicas. “Nos baseamos em normas existentes para as aeronaves tripuladas”, explica Assis, da XMobots. Hoje os principais fatores de risco associado ao voo de drones no mundo se referem à segurança das pessoas em áreas por eles sobrevoadas, possível colisão com aeronaves que compartilham do mesmo espaço aéreo e danos materiais numa eventual queda. “Eles devem ser tratados como aviões, não como brinquedos”, diz João Batista Camargo Júnior, professor da Escola Politécnica (Poli) da USP. Para ele, regras específicas devem ser criadas de acordo com a aplicação que o drone terá. Segundo Nei Brasil, presidente da Flight Technologies – empresa que já desenvolveu e entregou ao Exército e a Marinha três drones de pequeno porte –, a Anac pretende regulamentar o voo de vants civis até 2014. “A Anac segue as recomendações da Organização de Aviação Civil Internacional, que criou grupos de trabalho para discutir regras para a adoção de vants pelo mercado civil”, diz. Para Camargo Júnior, o país precisa estar atento. “As autoridades aeronáuticas devem zelar pela segurança da população em relação aos vants sem comprometer a pesquisa e o desenvolvimento da indústria nacional.”

Fonte: http://revistapesquisa.fapesp.br/2013/09/12/o-voo-do-falcao/